Irmã Ruth Paiva faleceu em Keene, Texas (EUA), em 19 de março de 2023. Pastor Itamar Sabino DePaiva a seguiu em 11 de janeiro de 2025, aos 91 anos.
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Entre linhas amareladas pelo tempo, uma carta de 1965 preserva a integridade silenciosa de um casal abenegado que serviu sem ruídos.
Washington D.C – Entre documentos pessoais preservados por décadas, uma carta datada de 11 de abril de 1965, encontrada recentemente entre os arquivos de família, oferece um raro retrato da vida cotidiana, das relações humanas e dos valores que marcavam o Brasil da época — especialmente na região amazônica.
Escrita em Manaus pelo pastor Itamar Sabino de Paiva, então ligado à Missão Central Amazonas da Igreja Adventista do Sétimo Dia, a correspondência foi enviada ao Capitão Jairo Saraiva, residente em Porto Velho, à época Território Federal de Rondônia, onde exercia o ministério como primeiro pastor da Igreja Adventista do Sétimo Dia na cidade.
Mais do que uma comunicação formal, o texto revela cuidado, responsabilidade e afeto dedicados a uma criança temporariamente confiada ao casal pastoral, em um contexto de grandes distâncias geográficas e escassos meios de comunicação.
Ao mencionar a irmã Ruth, esposa do pastor Itamar, a memória ganha contornos ainda mais humanos e sensoriais. Vem à boca o gosto da granola que ela preparava ao amanhecer, feita com aveia, mel e castanha-do-pará, servida com simplicidade e carinho — pequenos gestos que, ao sobreviverem na lembrança, revelam a dimensão silenciosa do cuidado cotidiano.
Preservada por anos pelo destinatário, a correspondência ultrapassa hoje o âmbito privado. Ela se impõe como documento histórico de valor social, ao revelar práticas de confiança, prestação de contas, zelo com a infância e uma religiosidade vivida de forma simples, ética e cotidiana — traços cada vez mais raros no mundo contemporâneo.
Ainda que, no presente, a reflexão do autor se apoie na razão e não mais na fé, o registro desta carta nasce do reconhecimento sereno de gestos humanos autênticos. Trata-se de um testemunho de gratidão que não se prende a rótulos ou crenças, mas ao mérito de pessoas que viveram com coerência, simplicidade e fidelidade aos valores que professavam.

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LEITURA MEMORIALISTICA DA CARTA (Manaus 11 de abril de 1965)
Esta carta, enviada pela Missão Central Amazonas da Igreja Adventista do Sétimo Dia, é mais do que uma comunicação administrativa ou religiosa. Ela é um registro íntimo de uma travessia — geográfica, familiar e simbólica — no coração do Brasil amazônico dos anos 1960.
1. O tempo e o lugar
Em 1965, Manaus ainda vivia entre o rescaldo do ciclo da borracha e o isolamento logístico da Amazônia profunda. Porto Velho, então Território Federal de Rondônia, era ainda mais remoto. Uma viagem aérea, mencionada com encanto e curiosidade, não era banal: era um acontecimento extraordinário, quase épico, especialmente para uma criança.
A carta revela isso com delicadeza:
“Gostaria de saber qual a sua impressão de uma viagem aérea, com a qual tanto sonhara.”
Aqui não há formalidade burocrática — há encanto genuíno.
2. Samuelzinho: a criança como centro moral
Samuel não é tratado como “menor”, “dependente” ou “acompanhante”. Ele é o centro afetivo e ético da narrativa. O diminutivo “Samuelzinho” não infantiliza: humaniza.
Os autores da carta sentem a necessidade quase pastoral de justificar cada cuidado:
• a disciplina escolar,
• o descanso após o almoço,
• a mediação de conflitos (especialmente com Ruth).
“Pois isto fizemos para que a criança fique bem mais calma.”
Essa frase revela algo raro: responsabilidade afetiva consciente. Não era apenas hospedagem — era guarda moral temporária.
3. Confiança entre adultos
Há uma palavra que atravessa silenciosamente todo o texto: confiança.
“Só temos a agradecer a confiança de havê-lo deixado conosco.”
Em um Brasil sem celulares, sem rastreamento, sem comunicação instantânea, confiar um filho a terceiros era um ato de fé real, não retórico. A carta devolve essa confiança com transparência, inclusive financeira.
4. O valor da passagem: Cr$ 14.500
A menção explícita ao valor da passagem pela Cruzeiro do Sul não é detalhe menor. Pelo contrário:
• demonstra prestação de contas,
• evita qualquer sombra de dúvida,
• revela uma ética quase artesanal de honra.
Não há cobrança, apenas esclarecimento:
“O demais já está tudo acertado.”
Isso diz muito sobre o tempo — e talvez mais ainda sobre as pessoas.
5. Religião sem fanatismo
Embora profundamente cristã, a carta não é dogmática. A fé aparece como linguagem de cuidado, não de imposição.
“Desejamos que os vossos filhos sejam encaminhados para os céus através da igreja e do lar.”
Igreja e lar aparecem no mesmo nível. Não há hierarquia. Há continuidade.
6. A assinatura
A assinatura de Itamar Sabino de Paiva encerra a carta com uma fórmula hoje quase desaparecida:
“Com estima elevada e grande consideração, detenho-me,”
É o fim de um gesto, não apenas de um texto. Um modo de dizer: cumpri meu dever humano.
Síntese final
Esta carta não fala apenas de Samuel.
Ela fala de:
• um Brasil onde distâncias exigiam caráter,
• uma época em que educar era também cuidar,
• relações baseadas em honra, palavra e fé vivida, não performada.
É um documento simples — e por isso mesmo poderoso. Um fragmento de memória que sobrevive porque foi escrito com verdade.
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Este singelo registro de gratidão, nascido da memória, repousa na compreensão de que os valores civilizatórios de fraternidade e respeito às diferenças se elevam acima de quaisquer sectarismos, pois é na humanidade partilhada, vivida sem imposições e em silêncio íntimo, que a consciência encontra sua ascensão — entre aqueles que escolhem guiarem-se pela fé ou pela razão.

