Um chamado à responsabilidade antes que o futuro cobre a conta
A naturalidade com que me comunico sobre este tema nasce da confiança de que, sendo sincero e autêntico na exteriorização da indignação, é possível encontrar equilíbrio e transformar inquietação em consciência. Não escrevo para atacar pessoas, ideologias ou nações, mas para harmonizar realidade e lucidez — e, a partir disso, estimular soluções razoáveis, lógicas e necessárias. A água é um desses temas diante dos quais o silêncio não é neutralidade: é cumplicidade com o colapso.
Amazônia: abundância que não mata a sede.
A Amazônia concentra um potencial hídrico imenso e simbólico. Ainda assim, paradoxalmente, existe escassez de água potável em diversas regiões — sobretudo em períodos de cheia ou seca extrema. A água sobe, mas a qualidade despenca. Sem saneamento, tratamento e gestão, a abundância vira risco: turbidez, contaminação fecal, resíduos e doenças de veiculação hídrica. Esse paradoxo revela uma verdade incômoda: água doce no território não significa água segura no copo.
Fiscalização ausente, futuro sacrificado.
Essa realidade me faz questionar quanto custa à nação brasileira — em impostos, abandono e atraso social — e o que tem feito, de fato, a bancada amazônica, que reúne 118 parlamentares federais (27 senadores e 91 deputados federais), além de 253 deputados estaduais e cerca de 7.000 a 11.000 vereadores na Amazônia Legal: algo entre 7.371 e 11.371 representantes eletivos diante de um quadro caótico, crônico e injustificável, onde a abundância hídrica convive com precariedade, descaso e miséria persistente.
E recordemos: compete ao Legislativo não apenas legislar, mas fiscalizar o Poder Executivo. Ainda assim, o que se percebe é inércia, improviso e ausência de visão de longo prazo. Muitos preferem ações imediatistas — de baixo impacto estrutural, mas alto retorno eleitoral — enquanto o essencial, como saneamento, educação e proteção hídrica, é empurrado para depois, porque “não aparece” e não rende votos. E é por isso que registro esta indagação, chamando à responsabilidade moral, como um exercício gratuito de cidadania: não para atacar por esporte, mas para exigir coerência, prioridades e resultados.
2003: o alerta era preventivo — hoje é emergencial.
Em 2003, encaminhei à ONU uma sugestão propondo estudos para transformar os recursos hídricos em patrimônio vital da humanidade, por serem essenciais à existência humana e, sobretudo, às futuras gerações. Na época, o tema era tratado por muitos como debate distante — quase uma precaução filosófica, como se o tempo fosse infinito e os riscos fossem apenas teóricos.
Mas 23 anos se passaram. De 2003 a 2026, o que era alerta preventivo tornou-se urgência concreta. A água já é fator de instabilidade, disputa e tensão, inclusive em países ricos. Isso prova que o problema não é apenas natural — é político, cultural e civilizacional.
E, diante dessa realidade, lembro-me de uma imagem simbólica: como se estivéssemos repetindo o erro coletivo da humanidade antes do dilúvio, quando apenas os irracionais se salvaram entrando na arca — não por mérito, mas por instinto. O ser humano, supostamente racional, segue ignorando sinais óbvios até que a tragédia se imponha como professora brutal.
Naquela época, em 2003, nem sequer sonhávamos contar com a eficácia imprescindível da Inteligência Artificial como ferramenta capaz de acelerar análises, ampliar consciência, cruzar dados, prever cenários e orientar decisões. Hoje, essa possibilidade existe — e justamente por isso, o nível de responsabilidade moral é ainda maior: não podemos alegar ignorância. Temos tecnologia, temos conhecimento, e já temos sinais suficientes. Falta apenas o que sempre faltou: consciência coletiva, vontade política e coragem institucional para agir antes do colapso.
Responsabilidade moral e o desprezo pela autoria.
Nascido na Amazônia e tendo contribuído como mentor de propostas legislativas sobre o tema, sinto-me moralmente obrigado a abordar este assunto com seriedade. Entre essas iniciativas, uma das mais estratégicas foi a proposta de integração de bacias hídricas entre diferentes regiões do Brasil, para que o excedente das cheias amazônicas pudesse, com planejamento e infraestrutura, levar água às regiões historicamente afetadas pela seca — como partes do Nordeste, do Centro-Oeste e do Sudeste. O que frustra é constatar que boas ideias, quando não são arquivadas, acabam muitas vezes apropriadas sem sequer citarem a fonte — uma pirataria intelectual oportunista e deplorável que empobrece o debate público e enfraquece a ética institucional.
A água está sendo envenenada: um efeito em cascata silencioso.
O planeta não está apenas “ficando sem água”; está comprometendo a água que possui. Rios e mananciais vêm sendo degradados por coliformes fecais, despejo de esgoto sem tratamento, mercúrio, produtos químicos industriais e agrícolas, além do descarte cotidiano normalizado pela ausência de políticas firmes e efetiva fiscalização, nos moldes da eficiência mostrada na cobrança de impostos.
A contaminação não para no ponto de origem. Ela se espalha como um efeito dominó: rios contaminam lagos, igarapés, aquíferos e, por fim, oceanos — destruindo ecossistemas e retornando ao ser humano pela cadeia alimentar. O que hoje muitos consideram “normal” será, amanhã, a causa de doenças, colapsos sanitários e perdas irreparáveis.
Saneamento e transporte fluvial: quando o inaceitável vira rotina.
Em regiões onde o transporte fluvial é predominante, a realidade sanitária de muitas embarcações revela um problema que não pode ser tratado como detalhe: a normalização do descarte de dejetos e águas servidas na própria rede hidrográfica que sustenta a vida.
Esse comportamento não é apenas falta de estrutura — é também ausência de educação sanitária e falência de fiscalização. A região mais rica em água doce do planeta não deveria conviver com práticas que transformam rios em esgoto a céu aberto.
Segurança aquífera: proteger agora ou pagar um preço impossível depois.
Segurança aquífera merece destaque porque é dela que depende não apenas o presente, mas a sobrevivência futura. O custo da despoluição é altíssimo — e quanto mais poluímos hoje, mais caro, complexo e até inviável será o tratamento amanhã, caso queiramos transformar essa água em potável e colocá-la nas torneiras com segurança.
Não basta invocar soberania nacional ou se declarar “dono” de reservas hídricas enquanto se fecha os olhos para o processo acelerado e absurdo de contaminação que vem sendo tolerado e normalizado. Água não é apenas território: é responsabilidade. E responsabilidade se mede por prevenção, fiscalização e consciência — não por discursos.
Crime por omissão: negligência institucional também mata.
Existe uma palavra que precisa ser dita com clareza: omissão também destrói. Quando o Estado falha em fiscalizar, quando governos ignoram saneamento, quando políticas públicas são relaxadas, precárias ou inexistentes, instala-se uma forma silenciosa de crime — o crime por omissão.
E quando uma população vive com baixa educação ambiental e sanitária, ela acaba, muitas vezes por ignorância e abandono, contribuindo para agravar a contaminação. Assim, a soma da negligência institucional com a falta de consciência coletiva produz um futuro previsível: a crise explode e recai injustamente sobre as próximas gerações.
Coerência antes do discurso: sustentabilidade começa em casa.
Nações que desejam liderar discursos globais sobre sustentabilidade precisam, antes de tudo, educar sua população e resolver seus próprios problemas internos com políticas sérias, estratégicas e de longo prazo.
Multilateralismo sem dever de casa é teatro.
É incoerente exigir apoio externo sem conter a degradação promovida internamente. E é ainda pior transformar a própria destruição ambiental numa espécie de chantagem indireta — como se o mundo tivesse obrigação de financiar a contenção do caos que governos negligenciam e populações, sem educação, replicam.
A cooperação internacional é importante, mas ela não substitui responsabilidade nacional.

Educação e lei: prioridade inadiável.
A importância de medidas educativas e de normas impositivas que enfrentem diretamente o despejo de dejetos nos rios — sem complacência com a devastação da vida aquática e dos oceanos — deve ser tratada como prioridade inadiável. Não se trata apenas de “preservar a natureza”, mas de proteger um patrimônio vital que, no futuro, poderá ser convertido, a custos altíssimos, em água potável para manter o planeta habitável.
Educação é a base. Mas sem lei, punição e fiscalização real, o rio continuará sendo tratado como lixeira. E quem paga a conta, no fim, é sempre o mais vulnerável — ou o ainda não nascido.
O futuro sem água segura: desconforto, doença e regressão.
Um mundo sem água segura não será apenas mais difícil. Será insalubre. A escassez e a contaminação tornam a vida desconfortável, instável, desigual e doente. A economia sofre, os conflitos aumentam, populações migram, e a dignidade humana vira privilégio.
Se a água colapsa, não colapsa apenas um setor: colapsa a própria ideia de civilização.
A água é vida, e vida não aceita improviso.
O tempo de tratar saneamento e proteção hídrica como agenda secundária terminou. A crise da água é o assunto mais sério do século porque não admite substitutos.
O que pode ser feito é simples — embora exija boa vontade e coragem:
• saneamento como prioridade absoluta
• fiscalização real e punição efetiva para crimes ambientais
• proteção de mananciais e aquíferos como patrimônio vital
• educação sanitária e ambiental desde a infância
• planejamento de longo prazo acima de ciclos eleitorais e marketing
• responsabilidade institucional com transparência e resultados
A pergunta final é inevitável: teremos maturidade para agir agora, com prevenção e consciência — ou deixaremos para nossos filhos e netos o destino cruel de sobreviver num planeta envenenado por nossa negligência?
Porque o futuro não perdoa.
E a água, quando se perde, não volta como promessa. Volta como ausência.

