A Servidão que se Normaliza: Entre a Exploração Material e o Estelionato da Fé

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Da antiga Babilônia às plataformas contemporâneas de entretenimento, a escravidão não foi extinta — foi racionalizada. Correntes tornaram-se narrativas; grilhões, consensos; deuses, algoritmos. Já não é necessário impor submissão: ela agora é praticada com entusiasmo, devidamente justificada por slogans, métricas e promessas de pertencimento. A capitulação intelectual deixou de ser constrangimento — converteu-se em virtude socialmente premiada. Mudaram-se os altares; permanece a liturgia da imaginação.

A engrenagem da desigualdade persiste porque os explorados, em sua maioria, sequer percebem que o são. A mais cruel das dominações não é aquela imposta pela força, mas a que se naturaliza pela adaptação. A extraordinária capacidade humana de suportar adversidades transforma o inaceitável em rotina, a exceção em norma, e a exploração em destino administrável.

No atrito entre o que se diz e o que se faz, surge um abismo. Nesse instante, a realidade se descola do discurso, gerando desconforto: contradições configuram um insulto à razão. É quando o verniz normativo racha, expondo a hipocrisia da engrenagem — social, institucional ou mesmo religiosa — a operar em desacordo com a própria narrativa que não logra legitimá-la. Diante disso, o silêncio já não é prudência, mas conivência — e deve ser rompido pelo dever moral à lucidez.

A adaptação ao absurdo é, muitas vezes, celebrada como resiliência. No entanto, essa resiliência pode ocultar uma forma sutil de rendição: a aceitação tácita de estruturas que perpetuam assimetrias sob o disfarce de ordem ou salvação. Estados e organizações religiosas, por vezes, entrelaçam interesses que pouco dialogam com valores morais ou civilizatórios, convertendo o temor metafísico em instrumento de conformidade social.

Promessas de juízo final ou de paraísos com atrativos materiais — inalcançáveis por uma existência reduzida à abstração energética — funcionam como dispositivos de compensação simbólica. Oferecem sentido onde há privação, transcendência onde há impotência, e esperança onde a justiça material se ausenta. Nesse arranjo, política e mercenarismo espiritual podem convergir, sustentando uma economia da crença que se alimenta da vulnerabilidade dos atemorizados.

Não se trata de opor-se a fé enquanto experiência íntima, mas de reconhecer quando ela é instrumentalizada como arquitetura de contenção. Altares mudam; a capitulação persiste. E enquanto a submissão de ontem buscava amparo na força, a de hoje encontra abrigo no significado.

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