Perseguido pelo Destino, Acolhido pelo Silêncio

A fuga

A verdade é simples: não somos apenas viajantes do tempo.

Somos também testemunhas da erosão.

A vida quase nunca destrói tudo de uma vez.

Ela solta as amarras devagar — com uma paciência que assusta — como quem não tem pressa porque sempre vence. Ela tira em pequenas porções. Um nome. Um lugar. Uma certeza. Uma estação. Ela subtrai sem alarde, dia após dia, como se o cotidiano fosse uma escola e a lição principal fosse a arte amarga do desapego.

E, ainda assim, algo dentro de nós insiste.

Continuamos correndo.

Continuamos construindo.

Continuamos amando.

Mesmo sabendo que a onda se aproxima.

Mesmo sabendo que sua natureza é alcançar.

Talvez seja isso que torna a existência tão estranha — e, por vezes, tão bela: não a promessa de permanência, mas a recusa obstinada de viver sem sentido. Seguimos criando significado dentro do efêmero. Seguimos plantando ternura em um solo instável.

O coração humano é um arquiteto que trabalha em ruínas e, ainda assim, levanta pontes. Ainda assim escreve poemas. Ainda assim oferece generosidade, afeto, cuidado silencioso. Ainda assim se comove com um pôr do sol — com um alvorecer colorido — com o gorjeio inocente de um ou outro pássaro, como se o mundo, apesar de tudo, ainda merecesse reverência.

Até que, em algum ponto do caminho, a chama nos envolve.

Não como castigo.

Nem como tragédia.

Mas como conclusão.

E então aquilo que chamamos de “fim” não é uma explosão.

É uma pausa definitiva.

Um recolhimento.

Um fechamento suave das portas do movimento.

Tudo fica para trás

O que resta é aquilo que sempre esteve ali, esperando sob o barulho das horas: o denso silêncio — onde as lembranças se afinam em impressões, e as impressões se desprendem, carregadas por ventos invisíveis através da imensidão do cosmos.

E talvez seja ali, dentro desse silêncio, que a vida finalmente revele sua verdade.

Não um inventário de vitórias ou derrotas.

Não um balanço de ganhos e perdas.

Mas um breve clarão de consciência atravessando a vastidão.

Um instante lúcido em que existimos, amamos, perdemos, lembramos —

e, mesmo sem garantia alguma, ousamos chamar isso de significado…

ainda que a permanência, no fundo, seja apenas a forma mais elegante do desejo.

…encontro no silêncio acolhedor

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