Pedir ajuda a Deus com rezas e orações é subestimar sua onisciência

Clamar por intervenção divina, ato ingênuo sem eficácia prática

Quando observo uma pessoa profundamente religiosa vivendo na miséria — ou atravessando uma situação difícil, muitas vezes originada de problemas que poderiam ter sido prevenidos ou resolvidos por meios concretos — e, ainda assim, insistindo em pedir a Deus uma solução, sou levado a um exercício elementar de lógica. Um exercício que, apesar de simples, costuma ser evitado justamente porque ameaça o conforto emocional de certas crenças.

Que tal começar pelo óbvio? Se Deus é onisciente, por que insistir em suplicar, como se Ele não soubesse? A repetição da prece não revela necessariamente fé; muitas vezes, revela desconfiança na própria ideia de onisciência — ou a necessidade psicológica de manter um ritual de dependência.

1) Se Deus existe e é justo e bom, como se explica a permanência do sofrimento? Ou esse sofrimento é “merecido” — o que torna a justiça divina moralmente questionável — ou as súplicas são inúteis, pois não alteram absolutamente nada.

2)  Se Deus é onisciente e onipresente — se tudo vê, tudo sabe e está em todo lugar —, então não há necessidade de pedidos, nem de repetição, nem de insistência. A dor humana já estaria plenamente exposta a essa consciência absoluta. Se, mesmo assim, nada muda, restam duas hipóteses: ou esse Deus não quer intervir, ou simplesmente não pode.

3) Se nada acontece sem a vontade e o consentimento divino, e se tudo tem um propósito”, então até a miséria teria propósito e estaria devidamente autorizada pelo plano superior.  Nesse caso, a lógica do próprio crente exigiria resignação total: aceitar, suportar e dizer “amém” — sem pedidos, sem lamento, sem revolta, nem desespero.

4) A conclusão mais racional é que esse ser descrito como perfeitamente justo, infinitamente bom e moralmente superior, do modo como costuma ser imaginado, não existe.  E, se existisse, permitindo sistematicamente a dor injusta, a fome, o abandono e o desespero, não poderia ser chamado de bom: seria indiferente, injusto, cruel e desumano — exatamente o oposto daquilo que se proclama nos púlpitos.

A consequência prática dessa reflexão é direta: o ser humano deveria investir em lucidez, responsabilidade e ação, e não depositar a própria vida nas mãos de personagens divinos cuja intervenção nunca se manifesta de forma verificável. Muitos acabam sofrendo duas vezes: sofrem pela realidade dura e, em seguida, sofrem pela expectativa frustrada de que o céu responderá.

Esse apego à fé automática raramente nasce de reflexão. Ele nasce de condicionamento precoce — de uma catequização internalizada na infância e raramente revisada na maturidade. A pessoa cresce, mas preserva o mecanismo mental: pede, espera, se resigna, repete. E quase nunca busca libertação psicológica desse padrão. Não por acaso, muitos jamais procuram auxílio real, inclusive com profissionais da psicanálise — que, em certos casos, também podem estar entre as vítimas desse mesmo condicionamento religioso sutil, persistente e socialmente normalizado.

Além disso, é preciso reconhecer um fator histórico e cultural quase sempre ignorado: grande parte dessa mentalidade não brotou espontaneamente da razão humana, mas foi herdada e transmitida como tradição. Trata-se, em grande medida, do legado de uma cultura colonizadora atrasada, que implantou suas fórmulas de obediência e culpa — e que, por sua vez, já havia copiado e adaptado elementos de tradições ainda mais antigas e rígidas, vindas do Oriente, reproduzindo mitos, hierarquias e promessas sobrenaturais como instrumentos de controle social.

O preço dessa estrutura é alto: tempo perdido, energia drenada, esperança consumida e uma existência inteira amarrada a promessas que não se cumprem, na expectativa pela ação de um ser inexistente — ou, no mínimo, cego, surdo, mudo, imóvel e indiferente ao sofrimento humano, como se a realidade punisse, com rigor, a credulidade levada ao extremo.

Tristemente, constata-se que a cultura da reza — a oração como muleta emocional e mental — transformou-se em um hábito social repetido por tradição e medo: uma forma de terceirizar a própria responsabilidade, de suspender a razão, e de trocar a ação concreta pela esperança vazia de uma intervenção sobrenatural que nunca chega.

A mente instruída que se ajoelha: inteligência sem liberdade

Por que pessoas com formação privilegiada em diferentes áreas do conhecimento relutam em se guiar pela lógica e pela razão e, em vez disso, preferem curvar os joelhos diante da tradição e dos dogmas, formando coro com a ignorância imposta pela fé — essa comunicação mental com o NADA? Porque, na maioria das vezes, a fé não funciona apenas como crença intelectual: ela opera como estrutura emocional, social e identitária. Questionar dogmas tem custo: pode significar perder aceitação, família, status e paz superficial. Além disso, o condicionamento da infância permanece enraizado mesmo em mentes brilhantes, sustentado por medos básicos — da morte, do vazio, do julgamento e da própria liberdade. A razão exige responsabilidade e ação; o dogma oferece conforto imediato e explicações prontas. E, quando a fé ainda rende prestígio moral, muitos preferem parecer virtuosos a ser lúcidos. No fim, a tragédia é simples: há quem estude o mundo inteiro, mas nunca aprenda a libertar a própria mente — e assim, mesmo com diploma, acaba ajudando a manter viva a velha liturgia: a oração como muleta e a submissão como virtude.

Razão: causa, efeito e responsabilidade

O cérebro humano não funciona por “percentuais mágicos” — ele está em atividade constante; o que varia é o modo como cada um usa a própria mente. Uma mente desenvolvida observa, relaciona causa e efeito, aprende, corrige e age; já uma mente acomodada prefere o atalho emocional da fé automática, repetindo fórmulas e terceirizando a responsabilidade para o “invisível”. Por isso, quase sempre, a minoria que pensa e trabalha com lucidez puxa a reboque uma maioria embrutecida, que opta pela oração como muleta em vez de enfrentar a realidade com lógica, disciplina e ação prática.

O realista ora como poesia — não como súplica por intervenção.

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Comentários;

Tem lógica. Talvez o valor da prece seja para fins de determinação individual. Também, a ciência vem comprovando que o pensamento é carregado de energia verificável. E nossa mente é um HD com espaço ilimitado. – José Guedes, Advogado

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