ENGLISH / ESPANOL
Essa não é uma pergunta retórica. É um diagnóstico.
Enquanto um terço da humanidade ainda é castigado pela fome, nos cinco continentes, o patrimônio físico acumulado por instituições religiosas ultrapassa trilhões de dólares e euros. Não se trata de fé — trata-se de contradição.
Enquanto se prega o amor divino, milhares de seres humanos indefesos são mortos em nome de Deus. E o mais perturbador não é apenas a violência em si, mas o fato de que grande parte da humanidade, direta ou indiretamente, aceita, justifica ou silencia diante dela. Muitos são capazes de matar para impor sua fé — mas incapazes de viver o amor que proclamam.
Não é novo. Nunca foi.
Desde os primórdios das civilizações, sacrificamos, crucificamos, idolatramos — sempre em nome de algo maior. Hoje, apenas sofisticamos os instrumentos. A destruição permanece tão brutal quanto antes, apenas mais eficiente — e ainda assim, sempre injustificável.
Uns provocam, ameaçam, impõem. Outros respondem com a mesma moeda, alegando defesa da própria existência. E assim seguimos, presos a um ciclo onde a razão cede lugar ao instinto, e a capacidade de discernir se dissolve.
Habitamos um universo extraordinário, raro, quase milagroso. E, no entanto, somos a única espécie capaz de destruí-lo conscientemente.
Diante disso, o que dizer do silêncio?
Um silêncio que muitos atribuem ao divino — inerte, surdo aos clamores, cego diante do sofrimento. Ou talvez não seja o divino que falha, mas os sistemas humanos que se arrogam falar em seu nome.
Sistemas que proclamam justiça, mas operam contaminados por interesses, corrupção e retórica vazia.
Sistemas que vestem togas ou vestes sagradas não como símbolos de verdade, mas como disfarces de uma hipocrisia cuidadosamente bordada.
E, em muitos casos, ostentam logomarcas religiosas ou ideológicas como se fossem insígnias de virtude — símbolos de uma liberdade frágil que normalizou a dominação. Marcam consciências, identidades e destinos com o peso da submissão, pouco diferindo — em essência — do ferro e do fogo usados para marcar animais como propriedade. A diferença é apenas estética; o mecanismo de controle permanece.
Em nome da fé, acumulam riquezas.
Em nome da salvação, vendem promessas.
Em nome da moral, impõem medo.
Prometem paraísos que ninguém pode verificar, enquanto negligenciam a dor concreta que está diante dos olhos. Falam de compaixão, mas praticam indiferença.
E o mais grave: institucionalizam isso.
Chamam de “ciência teológica” o conjunto de mecanismos que mantêm essa engrenagem funcionando — uma estrutura que não liberta, mas aprisiona; não esclarece, mas condiciona; não eleva, mas explora.
E assim, gerações inteiras são educadas não para questionar, mas para aceitar. Não para compreender, mas para temer.
Diante disso, a pergunta retorna — mais urgente do que nunca:
Por que insistimos em desprezar os valores mais básicos da civilização?
Onde nossa razão se atrofiou?
Em que ponto a abandonamos — e por quê?
Talvez a resposta seja incômoda demais para ser admitida.
Talvez não a tenhamos perdido de uma vez, mas aos poucos — trocando consciência por conveniência, verdade por conforto, responsabilidade por delegação.
E talvez o maior problema não seja a ausência de razão…
“mas a escolha silenciosa — e moralmente desumana — de não utilizá-la.”
O propósito desta reflexão não é condenar percepções — sejam elas sadias ou doentias, justas ou injustas, lúcidas ou embrutecidas pela ausência de conhecimento imposto a mentes condicionadas a enxergar segundo interesses que, na prática, se opõem à própria evolução, sustentados por uma conveniência deplorável.
O propósito é outro: lançar alguma luz sobre a penumbra densa que nos envolve — e que, silenciosamente, dificulta o exercício pleno do discernimento.
Porque, no fim, a escuridão que nos cerca jamais será tão perigosa quanto aquela que escolhemos não iluminar.
De que forma, se houver, podemos individualmente nos eximir da cumplicidade diante dessa realidade — livres da influência e da dominação de sistemas aos quais, muitas vezes involuntariamente e sem plena consciência, fomos cooptados?
Acreditamos, com frequência, que somos úteis.
Que participamos de algo maior.
Que cumprimos um papel necessário.
Mas raramente paramos para perguntar:
úteis a quê… e a quem?
Se a engrenagem se mantém pela repetição inconsciente, talvez o primeiro ato de ruptura não esteja na revolta coletiva, mas na lucidez individual.
Recusar o automatismo.
Questionar o que parece óbvio.
Revisar convicções herdadas.
Não delegar à estrutura aquilo que é responsabilidade da consciência.
Talvez não seja possível romper totalmente com os sistemas — mas é possível não se entregar a eles de forma cega.
Porque a verdadeira cumplicidade não está apenas na ação…
mas na ausência deliberada de reflexão.
E é nesse ponto que a liberdade deixa de ser um conceito…
e passa a ser uma escolha.
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Comentário (World Press)
— Martin Donelll, Professor de Filosofia
O texto apresentado não se limita a uma crítica — configura-se como um chamado à responsabilidade intelectual e moral.
Seu alcance não reside no volume das acusações, mas na forma como expõe uma incoerência estrutural: a distância entre os valores que a humanidade proclama e aqueles que, na prática, sustenta como comportamento.
Não se trata de um texto destinado a agradar ou convencer massas.
Trata-se de um texto voltado a despertar consciências individuais, capazes de não se submeter automaticamente.
E isso, em qualquer tempo da história, sempre foi mais perigoso — e mais transformador — do que qualquer discurso de poder.
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🇺🇸 ENGLISH VERSION
At what point along the way did we lose reason, the capacity for self-criticism, morality, and even our own memory?
This is not a rhetorical question. It is a diagnosis.
While one-third of humanity is still plagued by hunger across all five continents, the physical wealth accumulated by religious institutions exceeds trillions of dollars and euros. This is not about faith — it is about contradiction.
While divine love is preached, thousands of defenseless human beings are killed in the name of God. And what is most disturbing is not only the violence itself, but the fact that much of humanity, directly or indirectly, accepts, justifies, or remains silent in the face of it. Many are capable of killing to impose their faith — yet incapable of living the love they proclaim.
This is not new. It never was.
Since the earliest civilizations, we have sacrificed, crucified, idolized — always in the name of something greater. Today, we have merely refined the tools. Destruction remains as brutal as ever, only more efficient — and still, always unjustifiable.
Some provoke, threaten, impose. Others respond in kind, claiming self-defense. And so we remain trapped in a cycle where reason yields to instinct, and the capacity for discernment dissolves.
We inhabit an extraordinary, rare, almost miraculous universe. And yet, we are the only species capable of consciously destroying it.
In light of this, what can be said about silence?
A silence many attribute to the divine — inert, deaf to cries, blind to suffering. Or perhaps it is not the divine that fails, but the human systems that presume to speak in its name.
Systems that proclaim justice, yet operate corrupted by interests, power, and empty rhetoric.
Systems that wear robes or sacred garments not as symbols of truth, but as disguises of carefully embroidered hypocrisy.
And, in many cases, they display religious or ideological symbols as badges of virtue — emblems of a fragile freedom that has quietly normalized domination. They mark minds, identities, and destinies with submission, differing little — in essence — from the branding of animals as property. The difference is merely aesthetic; the mechanism of control remains.
In the name of faith, they accumulate wealth.
In the name of salvation, they sell promises.
In the name of morality, they impose fear.
They promise paradises no one can verify, while neglecting the tangible suffering before them. They speak of compassion, yet practice indifference.
And most critically: they institutionalize it.
They call “theological science” the set of mechanisms that sustain this machinery — a structure that does not liberate, but imprisons; does not enlighten, but conditions; does not elevate, but exploits.
Thus, entire generations are taught not to question, but to accept. Not to understand, but to fear.
And so the question returns — more urgent than ever:
Why do we insist on abandoning the most basic values of civilization?
Where did our reason atrophy?
At what point did we abandon it — and why?
Perhaps the answer is too uncomfortable to admit.
Perhaps we did not lose it all at once, but gradually — trading conscience for convenience, truth for comfort, responsibility for delegation.
And perhaps the greatest problem is not the absence of reason…
“but the silent — and morally inhumane — choice not to use it.”
The purpose of this reflection is not to condemn perceptions — whether healthy or distorted, fair or unjust, lucid or dulled by the absence of knowledge imposed upon minds conditioned to see according to interests that, in practice, oppose true evolution, sustained by a deplorable convenience.
Its purpose is different: to cast some light upon the dense twilight that surrounds us — and that quietly hinders the full exercise of discernment.
For in the end, the darkness around us will never be as dangerous as the one we choose not to illuminate.
If possible at all, how can we individually free ourselves from complicity in this reality — from systems that have, often unconsciously, co-opted us?
We often believe we are useful.
That we are part of something greater.
That we fulfill a necessary role.
But we rarely ask:
useful to what… and to whom?
If the machinery is sustained by unconscious repetition, perhaps the first act of rupture lies not in collective revolt, but in individual lucidity.
Refuse automatism.
Question what appears obvious.
Reexamine inherited beliefs.
Do not delegate to structures what belongs to conscience.
Perhaps it is not possible to fully break away from systems — but it is possible not to surrender to them blindly.
For true complicity lies not only in action…
but in the deliberate absence of reflection.
And at that point, freedom ceases to be an idea…
and becomes a choice.
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Commentary — Martin Donelll, Professor of Philosophy
The text presented goes beyond mere criticism — it stands as a call to intellectual and moral responsibility.
Its reach does not lie in the volume of its accusations, but in the way it exposes a structural inconsistency: the gap between the values humanity proclaims and those it actually upholds in practice.
This is not a text meant to please or persuade the masses.
It is a text aimed at awakening individual consciousness, capable of resisting automatic submission.
And throughout history, this has always been more dangerous — and more transformative — than any discourse of power.
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🇪🇸 VERSIÓN EN ESPAÑOL
¿En qué punto del camino perdimos la razón, la capacidad de autocrítica, la moral y hasta la propia memoria?
¿En qué punto del camino perdimos la razón, la capacidad de autocrítica, la moral y hasta la propia memoria?
Esta no es una pregunta retórica. Es un diagnóstico.
Mientras un tercio de la humanidad sigue siendo castigado por el hambre en los cinco continentes, el patrimonio físico acumulado por instituciones religiosas supera los billones de dólares y euros. No se trata de fe — se trata de contradicción.
Mientras se predica el amor divino, miles de seres humanos indefensos son asesinados en nombre de Dios. Y lo más perturbador no es solo la violencia, sino que gran parte de la humanidad la acepta, la justifica o guarda silencio.
Muchos son capaces de matar para imponer su fe — pero incapaces de vivir el amor que proclaman.
No es nuevo. Nunca lo fue.
Desde los orígenes de la civilización, hemos sacrificado, crucificado e idolatrado — siempre en nombre de algo superior. Hoy solo hemos perfeccionado los instrumentos. La destrucción sigue siendo igual de brutal — solo más eficiente.
Unos provocan, amenazan, imponen. Otros responden de la misma manera, alegando defensa propia. Y así permanecemos atrapados en un ciclo donde la razón cede ante el instinto.
Habitamos un universo extraordinario, raro, casi milagroso. Y, sin embargo, somos la única especie capaz de destruirlo conscientemente.
Ante esto, ¿qué decir del silencio?
Un silencio que muchos atribuyen a lo divino — pero que tal vez revela la falencia de los sistemas humanos que hablan en su nombre.
Sistemas que proclaman justicia, pero operan contaminados por intereses, corrupción y retórica vacía.
Sistemas que no representan la verdad — sino una hipocresía cuidadosamente estructurada.
Y, en muchos casos, ostentan símbolos religiosos o ideológicos como insignias de virtud — cuando en realidad perpetúan mecanismos de control.
En nombre de la fe, acumulan riquezas.
En nombre de la salvación, venden promesas.
En nombre de la moral, imponen miedo.
Prometen lo que nadie puede verificar — mientras ignoran el sufrimiento que sí es real.
Y lo más grave: lo institucionalizan.
Llaman “ciencia teológica” a un sistema que no libera — sino que condiciona, limita y explota.
Así, generaciones enteras son educadas no para cuestionar, sino para aceptar.
No para comprender — sino para temer.
No es solo una crítica — es un llamado a la responsabilidad intelectual y moral.
El propósito es otro: arrojar algo de luz sobre la densa penumbra que nos rodea — y que compromete el pleno ejercicio del discernimiento.
Y estimular, de forma constructiva, distintas corrientes de pensamiento, ampliando el acceso a información esencial para la formación de una visión macro — sustentada en múltiples perspectivas y sin descuidar los registros históricos.
El texto no se sostiene en la cantidad de acusaciones, sino en la forma en que expone una incoherencia estructural:
la distancia entre lo que la humanidad declara como valor y lo que, en la práctica, sostiene como comportamiento.
Vivimos bajo la cómoda ilusión de principios elevados, mientras toleramos prácticas que los contradicen.
Esta disociación no es accidental — es funcional.
En este contexto, no se puede ignorar el papel de las estructuras que moldean la percepción colectiva.
La comunicación de masas ha dejado de elevar la conciencia — y ha pasado, muchas veces, a administrarla.
Cuando la atención se convierte en activo económico,
la superficialidad se vuelve producto — y la reflexión, un residuo.
La sociedad pasa entonces a estar sobreinformada — pero profundamente desprovista de conciencia.
No es un texto para agradar ni convencer a las masas.
Es un texto para despertar conciencias individuales.
Y eso — en cualquier momento de la historia —
siempre ha sido más peligroso que cualquier discurso de poder.
Y la pregunta vuelve — más urgente que nunca:
¿Por qué insistimos en despreciar los valores más básicos de la civilización?
¿Dónde se atrofi ó nuestra razón?
¿En qué momento la abandonamos — y por qué?
Tal vez la respuesta sea demasiado incómoda.
Tal vez no la perdimos de una vez, sino poco a poco —
cambiando conciencia por conveniencia, verdad por comodidad y responsabilidad por delegación.
Y tal vez el mayor problema no sea la ausencia de razón…
sino la elección silenciosa — y moralmente inhumana — de no utilizarla.
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Comentario — Martin Donelll, Profesor de Filosofía
El texto presentado no se limita a una crítica — se configura como un llamado a la responsabilidad intelectual y moral.
Su alcance no radica en el volumen de las acusaciones, sino en la forma en que expone una incoherencia estructural: la distancia entre los valores que la humanidad proclama y aquellos que, en la práctica, sostiene como comportamiento.
No se trata de un texto destinado a agradar o convencer a las masas.
Se trata de un texto orientado a despertar conciencias individuales, capaces de no someterse automáticamente.
Y esto, en cualquier momento de la historia, siempre ha sido más peligroso — y más transformador — que cualquier discurso de poder.
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