.Imagem: Reprodução / G1 — informação amplamente divulgada na mídia nacional em 8 de abril de 2026.
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Entre a ingenuidade conveniente e o descaramento institucional — há quem ainda acredite que o galinheiro está seguro. …guardião virou predador do sistema que deveria proteger… mas se protege.
Quando o galinheiro vira sistema — e a fiscalização se reduz a um exercício de conveniência institucional, a razoabilidade se dissolve — e o sistema passa a se sustentar na própria distorção
Será que perdi a noção… ou estamos todos assistindo, com naturalidade inquietante, à normalização do absurdo?
Quando cifras milionárias gravitam ao redor das mais altas esferas do poder e nomes sensíveis entram no radar público, o que se espera de uma República minimamente séria?
Rigor, investigação independente e transparência irrestrita.
Mas não.
O que se observa, com uma previsibilidade quase didática, é o refinamento de um mecanismo antigo:
a blindagem institucional travestida de normalidade.
E não deixa de ser irônico — para não dizer revelador — que, há 19 anos, na condição de cidadão, encaminhei ao então presidente da CCJ do Senado, o senador Bernardo Cabral, a sugestão de um estudo sobre a necessidade de controle externo do Judiciário.
O parecer técnico veio com a tranquilidade de quem acredita no improvável:
o controle interno vigente seria plenamente suficiente.
Em outras palavras, concluiu-se — com seriedade acadêmica e conforto institucional — que:
uma raposa é perfeitamente capaz de investigar outra… mesmo após o desaparecimento das galinhas e dos pintinhos.
Ingenuidade, identificação com a imoralidade, má fé,
ou um grau elevado de sofisticação na arte de fingir que o problema não existe?
Porque o modelo, na prática, parece simples:
– quem deveria ser fiscalizado participa do próprio processo de fiscalização
– quem deveria esclarecer, frequentemente se resguarda
– e quem ousa questionar… passa a ser o inconveniente da história
E é aqui que o fenômeno se revela em sua forma mais pura:
o corporativismo não como desvio — mas como engrenagem.
Não se trata de afirmar culpa sem prova.
Isso seria leviano.
Mas também não se trata de aceitar silêncio como resposta.
Isso seria conveniente demais.
O problema não está apenas nos fatos —
mas na forma como eles são (ou deixam de ser) enfrentados.
Porque, quando suspeitas relevantes não produzem reações proporcionais,
quando o desconforto institucional é seletivo,
quando a transparência se torna opcional…
o que se compromete não é apenas um caso isolado —
é a própria confiança pública na Justiça.
E aqui surge o ponto mais incômodo — aquele que muitos preferem não encarar:
Como esperar que a Justiça puna com autoridade moral o criminoso comum,
se, nos níveis mais altos, a percepção pública passa a enxergar proteção onde deveria haver rigor?
Mas talvez o mais curioso — e ao mesmo tempo preocupante —
não esteja apenas nas estruturas.
Está também nas reações.
Há uma parcela da sociedade que, por uma espécie de cegueira intelectual de nascença — ou confortavelmente adquirida —, se apressa em defender o indefensável, relativizar o questionável e atacar qualquer tentativa de escrutínio.
Não investigam.
Não questionam.
Não ponderam.
Apenas aderem.
São os fiéis de uma lógica curiosa:
se está no topo, deve estar certo — e quem duvida, incomoda.
Transformam suspeitas em tabu,
questionamentos em heresia,
e a crítica em ofensa.
E assim, entre a passividade e a conveniência, ajudam a sustentar exatamente aquilo que, em tese, deveriam repudiar.
Talvez — apenas talvez — a proposta de 19 anos atrás não fosse exagero,
mas um alerta prematuro ignorado com a tranquilidade de quem acredita que sistemas se autocorrigem… mesmo quando não querem.
Hoje, a realidade parece menos teórica — e mais didática.
E a pergunta que permanece, incômoda e insistente, é simples:
quem vigia os vigilantes… quando os vigilantes contam com a proteção daqueles que se recusam a enxergar?
— Quando o galinheiro vira sistema — e a fiscalização se torna conveniência institucional, sustentada por quem renunciou a raciocinar livremente com razoabilidade.

