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Na omissão do IBAMA, a verdade sobre o consumo de carne silvestre evapora — e a República da Paca prospera, enquanto cidadãos sensatos seguem à espera de respostas que insistem em não vir.

Manual do Delírio Econômico: quando o absurdo vira argumento, a paca paga a conta — e a solução deságua na ilusão surrealista, num ciclo geracional de mesmice alimentada pela fé no improvável.
Um amigo ultracrepidário — daqueles que tratam a ignorância como se fosse especialização — apresentou, com notável convicção, a verdadeira causa do endividamento de 84% das famílias brasileiras: o consumo desenfreado de carne de paca de cativeiro.
Sim, finalmente alguém teve coragem de ignorar todos os fatores irrelevantes — inflação, juros, carga tributária, perda de renda — e apontar o verdadeiro culpado: o prato do brasileiro, que, ao que parece, tornou-se sofisticadamente subterrâneo.
Durante anos, economistas, analistas e instituições perderam tempo tentando explicar o óbvio. Bastava observar: não é a escassez que endivida — é o excesso… de paca.
E não qualquer excesso. Trata-se de um fenômeno quase aristocrático, no qual o Brasil, segundo essa brilhante leitura, lidera o mundo — ainda que apenas no mesmo território onde essa tese foi concebida: o da desconexão absoluta com a realidade.
Enquanto isso, a prometida picanha foi, sim, entregue. Com rigor estético e compromisso simbólico. Não chegou à mesa como alimento — mas como estampa em toalhas de plástico e de tecido, permitindo que o povo, ao menos, exercite a contemplação daquilo que nunca provou.
Há algo de admirável nessa capacidade de reconstruir a realidade até que ela se torne confortável — ou, no mínimo, risível.
E, nesse cenário, chama atenção o silêncio institucional diante de temas que, quando envolvem o cidadão comum, costumam ser tratados com rigor exemplar.
A ausência de esclarecimentos por parte de órgãos como o IBAMA sobre a origem de determinados consumos de animais notadamente silvestres não passa despercebida — sobretudo em um país onde a fiscalização, quando direcionada à população, é frequentemente ágil, precisa, implacável e por vezes, covarde.
Curiosamente, essa mesma eficiência parece perder tração quando o objeto da apuração envolve figuras de maior relevância política ou institucional.
Não se trata de incapacidade — isso seria até mais confortável de admitir.
Mas de uma assimetria que levanta questionamentos inevitáveis sobre critérios, prioridades e, por vezes, sobre a própria independência de estruturas que deveriam operar sob o princípio da impessoalidade.
Ainda assim, é importante reconhecer: tais instituições são compostas, em grande parte, por profissionais técnicos e comprometidos com a ética.
O que torna o contraste ainda mais inquietante — não pela ausência de capacidade, mas pela percepção de contenção.
E assim, entre silêncios seletivos e rigor direcionado, a confiança pública vai sendo corroída… não por um ato isolado, mas por um padrão que se repete — e se naturaliza.
O mais curioso é que tais análises não surgem da falta de informação, mas de algo mais profundo: a recusa ativa em pensar com responsabilidade.
Porque pensar exige confronto.
Exige desconforto.
Exige, sobretudo, abandonar a fantasia conveniente.
Mas isso implicaria renunciar ao papel de comentarista onisciente — função à qual certos indivíduos se agarram com mais firmeza do que aos fatos.
E, como se não bastasse, há cidadãos que se prestam ao papel de justificar o injustificável e defender o indefensável, aderindo — com impressionante devoção — às mesmas promessas recicladas por estelionatários eleitorais que reaparecem, pontualmente, a cada temporada política.
Sem pudor.
Sem constrangimento.
Sem vergonha.
E, ao que tudo indica, sem memória.
Seguem acreditando, não por falta de evidência…
mas por uma escolha deliberada de ignorá-la.
Quanto ao senso do ridículo, não apenas foi abandonado — foi substituído por uma confiança inabalável na própria superficialidade.
E assim seguimos:
uma sociedade onde muitos não compreendem o que dizem,
mas verborragiam bobagens com absurda convicção…
que quase convencem a si mesmos.
Na emergente República da Paca, o absurdo não apenas governa — é venerado por ignorantes e a realidade se ajoelha… enquanto a ilusão é coroada.
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