Há momentos em que o mundo não grita — apenas insiste, ou cala.
Insiste com seu rumor constante, com a velocidade das certezas, com o brilho dos gestos vazios. E, ainda assim, por dentro, tudo parece quieto. Não um silêncio pacífico, mas um silêncio de ausência: como se a humanidade tivesse aprendido a falar sem se escutar.
Talvez seja porque, no fundo, todos sentimos o mesmo: a vida começa como um alvorecer — amplo, inocente, cheio de promessas — e caminha, sem exceção, para seu infalível crepúsculo. Entre esses dois extremos, atravessamos o tempo tentando dar sentido ao que passa, tentando sustentar aquilo que não deveria se perder: presença, verdade, dignidade e esperança.
Somos muitos. Mas nem sempre nos encontramos ou estamos juntos.
A solidão contemporânea não é falta de gente; é falta de presença.
É estar cercado de vozes e continuar sem testemunha. É oferecer a própria verdade e vê-la devolvida como se fosse incômodo, ou desinteressante. É ser profundo num tempo em que quase tudo foi projetado para flutuar.
E então percebemos, com certa tristeza lúcida: há abundância de palavras e escassez de convicção. Há retórica de amor por todos os lados — frases bonitas, ensinamentos tocantes — mas poucas mãos dispostas a sustentar o peso do que se diz. O mundo aprendeu a decorar luz sem acender o próprio coração.
A VERDADE EM TEMPOS DE RUÍDO
O ruído, a diversão fulgaz não é apenas barulho: é distração organizada.
É um modo sofisticado de impedir que o essencial nos alcance. É a política da superficialidade o culto do rápido, o vício do aparentemente belo. O ruído ocupa o espaço onde a consciência deveria respirar.
E assim, a verdade vai sendo empurrada para um canto — não por ser falsa, mas por ser incômoda. Porque a verdade exige postura, exige renúncia, exige escolhas. E escolhas, hoje, parecem custar mais do que as pessoas estão dispostas a pagar, ou podem pagar.
O falso, ao contrário, é generoso: ele abraça sem cobrar. Ele consola sem responsabilidade. Ele seduz sem consequência.
E é por isso que prospera.
A LUCIDEZ COMO COMPANHIA
Há quem ache que a lucidez é peso.
Mas, na verdade, a lucidez é abrigo. Ela não nos livra do mundo — ela nos impede de sermos engolidos por ele.
Discernimento é liberdade: é ele que nos solta dos dogmas que abraçamos por simpatia e nos tira da mesmice que impede nossa evolução interior, num mundo ainda cheio de mentes aprisionadas e confusas por ilusões pouco razoáveis.
Em certos dias, a introspecção deixa de ser recolhimento e se torna resistência. Não uma fuga, mas um gesto de dignidade: o esforço silencioso de permanecer inteiro. Porque viver, às vezes, é apenas isso — manter a própria consciência acordada quando tudo ao redor parece anestesiado.
E nesse ponto uma constatação ganha força: a lucidez também é uma forma de companhia. Ela nos prova que ainda há humanidade onde existe reflexão, e ainda há caminho onde existe verdade. Mesmo que ninguém aplauda. Mesmo que ninguém note.
Não escrevo em busca de aplausos, que se limitam a caricia de uma vaidade tola — acariciando o ego empobrecido no ilusório palco dos sentidos. Escrevo por outra razão: porque talvez alguém leia e não se sinta só. Talvez alguém reconheça, por trás das palavras, a mesma inquietação: a sensação de que a consciência, em vez de evoluir, tem regredido sob o peso do brilho, do luxo moral e do espetáculo.
NÃO ESTAMOS SÓS — APENAS DESENCONTRADOS
Talvez a frase mais verdadeira seja também a mais simples: não estamos realmente sós — apenas desencontrados.
Desencontrados no tempo, na pressa, no excesso de ruído. Desencontrados porque a vida virou um corredor e nós esquecemos de olhar nos olhos.
E ainda assim… isso não precisa ser sentença. Pode ser impulso.
Pode nos lembrar que ainda há pontes possíveis, convergências inteligentes, encontros que preservem a honestidade do pensamento e a lógica da impressão genuína — sem drama, sem teatro, sem covardia, sem traição, apenas com a autoridade serena de uma manifestação sensata.
A solidão não é prova de abandono: às vezes é apenas o intervalo que a vida cria antes do reencontro com aquilo que faz sentido.
A DIGNIDADE DO REAL
Há um tipo de beleza que ilude — e há uma beleza que sustenta e fascina.
A primeira brilha; a segunda permanece. A primeira seduz; a segunda transforma. A primeira precisa de plateia; a segunda não precisa nem de aplauso, nem de aprovação.
A dignidade do real está nessa beleza silenciosa: a que não se vende, a que não se exibe, a que não grita para existir alimentando vaidades insustentáveis.
E é justamente por isso que ela se tornou rara.
O glamour é um anestésico. Ele dá a sensação de que estamos vivendo intensamente, quando na verdade estamos apenas evitando o vazio. A aparência é uma máscara sofisticada: ela nos faz parecer inteiros, mas cobra o preço da profundidade e pode ferir a alma.
O real, ao contrário, exige coragem.
E toda coragem verdadeira tem algo de espiritual — não no sentido religioso, mas no sentido humano: a firmeza de sustentar e valorizar aquilo que não se compra.
QUANDO A CONSCIÊNCIA AINDA ILUMINA
A humanidade caminha, muitas vezes, como quem atravessa uma ponte frágil sobre um abismo.
De um lado, a razão; do outro, a loucura. E entre ambas, a linha tênue onde tropeçamos — às vezes por ignorância, às vezes por vaidade, às vezes por conveniência.
O mais assustador não é o abismo em si. É a inversão de valores que nos faz chamar de virtude aquilo que é fuga; de liberdade aquilo que é vício; de autenticidade aquilo que é brutalidade; de liberdade aquilo que aprisiona; de felicidade aquilo que é distração.
E então somos cobertos por um manto esfarrapado de nojo e de vergonha — uma vergonha que tenta se esconder, mas falha diante da luz interior. Porque a consciência, mesmo enfraquecida, ainda ilumina. E quando ela ilumina, dói. E quando dói, é porque ainda existe.
A dor moral é uma prova de que ainda há algo vivo, sensibilidade.
E enquanto houver algo vivo, há possibilidade.
PENSAR ANTES DO CAOS
Não temos como conter a marcha insana dos que conduzem a “civilização” ao caos. Ela avança como uma correnteza.
Mas talvez possamos compreendê-la, e assim sofrer menos com aquilo que impacta e não está sob nosso controle.
Muitas tragédias não são surpresas. São previsões ignoradas.
A ausência de profundidade não se paga de imediato — ela cobra juros no futuro.
O erro recorrente é pensar apenas depois de decidir precipitadamente pelo caos.
Quando a inteligência foi feita para inverter essa ordem: pensar antes, e evitar o dano, próprios e a outros, que a lucidez permite evitar.
Porque a vida não exige que sejamos perfeitos — exige apenas que sejamos honestos o suficiente para aprender com as lições que se repetem, antes que seja tarde.
CONCLUSÃO
No fim, talvez o sentido não esteja em vencer o mundo, nem em convencer multidões. Talvez esteja em atravessar a existência sem abandonar o essencial: a verdade, a sensatez, a responsabilidade, a delicadeza que não precisa de plateia para existir.
Não estamos sós.
Estamos apenas desencontrados.
E essa constatação, longe de nos paralisar, pode — ao contrário — fortalecer em nós o desejo e a razão de seguir adiante com dignidade: do alvorecer ao crepúsculo, até o desfecho inevitável da existência física, que não é um fim absoluto, mas o limiar de uma existência espiritual que prossegue na medida da elevação que conquistamos neste plano — revelada, com clareza, pelas ações, boas ou más, dignas ou indignas, que escolhemos praticar.
Porque, quando tudo passa, resta aquilo que nunca deveria ter sido negociável: o valor de manter a consciência acesa.
Na inquietação da solidão, sob o assobio dos ventos gélidos que açoitam as noites invernais, acontece o diálogo interior — e nele se revela uma certeza silenciosa: em breve a primavera chegará luminosa, para fazer florescer a própria alma, num renascimento existencial.
Talvez a vida só nos peça isso: reconhecer a coragem intacta que ainda nos habita e, com ela, continuar — livres — na direção do destino que nos aguarda.
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Comentários:
“Admiro e valorizo o talento do amigo Samuel Sales Saraiva e, por isso, compartilho aqui um pouco da sua invejável inspiração ao escrever. Você é um talento desencontrado. Sou admirador da sua competência. Escreve como poucos. Parabéns.” Álvaro Dias – Líder político brasileiro
“Senador, sim, é espetacular. Samuel Saraiva tirou esse texto das entranhas, da alma.” Cris Rodrigues – Servidora Publica, Estado do Paraná
“Chorei do início ao fim da leitura. Senti como se o tempo tivesse passado enquanto eu apenas sobrevivia, ocupada demais em agradar o outro e ausente de mim mesma. Percebi o quanto me acolhi pouco, o quanto me deixei para depois. A leitura é um espelho dolorido, mas necessário. Muito reflexiva. Excelente.” Esmeralda Salles – Dra. em Psicologia – Rio de Janeiro
“Uau! Esse artigo é para ler e reler, e entendermos os dogmas da vida. Samuel Saraiva sempre nos brindando com textos primorosos.” Maria Cristina C. Rodrigues – Professora – Curitiba
Excelente reflexão!!!! Sílvio Persivo – Professor Doutor em Economia – UNIR

