QUEIMAR MÁQUINAS, OU REPRIMIR CIDADÃOS NÃO SALVARÁ A AMAZÔNIA

Queimar máquinas não salva a Amazônia: o fracasso moral e político por trás da narrativa oficial

WASHINGTON D.C – O recente enaltecimento de operações repressivas contra o garimpo ilegal na Amazônia, celebradas como grandes vitórias ambientais, revela mais sobre a fragilidade do Estado brasileiro do que sobre sua real capacidade de proteger a floresta. Ao transformar a destruição de máquinas, balsas e estruturas em espetáculo midiático, o poder público oferece números vistosos e manchetes convenientes, enquanto evita o debate essencial: por que o problema persiste e quem falhou em preveni-lo.


Parte dos doadores internacionais ainda parece não perceber que a assistência financeira ao Fundo Amazônia e a programas similares acabou alimentando uma indústria das queimadas, na qual a destruição se torna funcional e, paradoxalmente, lucrativa. Em vez de eliminar causas estruturais, o modelo atual frequentemente administra consequências, incentivando a dependência de recursos externos.

Esse desvio não é apenas teórico: agências policiais e ambientais do Brasil já identificaram a atuação de supostos ativistas e brigadas ambientais como agentes criminosos, provocando incêndios para forçar novas doações — como ocorreu no município de Santarém, no oeste do estado do Pará.

A solução efetiva não está em assistencialismo nem em repressão episódica, mas na responsabilidade do Estado brasileiro: educar sua população, promover inclusão produtiva e implementar políticas públicas voltadas à produção agroflorestal sustentável. Sem isso, o financiamento externo tende apenas a perpetuar o problema.

A repressão isolada pode gerar impacto visual e aplausos momentâneos, mas não produz justiça ambiental, estabilidade social nem preservação duradoura. Quando apresentada como política ambiental bem-sucedida, converte-se numa perigosa inversão de valores.

É razoável supor que tais avaliações não serão recebidas com simpatia pelas autoridades brasileiras. Contudo, este debate não busca aprovação política, mas responsabilidade. Quando volumes significativos de recursos são mobilizados em nome da proteção ambiental e reiteradamente deixam de produzir resultados proporcionais e verificáveis, o silêncio deixa de ser prudência e passa a ser negligência. Alertar os doadores para o risco estrutural de que recursos bem-intencionados estejam alimentando a corrupção endêmica não constitui hostilidade contra uma nação, mas um dever para com a transparência, a boa governança e os cidadãos que financiam esses programas.

Queimar máquinas não salva a Amazônia. Tampouco a contínua alocação de recursos financeiros em ambientes onde a transparência é estruturalmente frágil, os mecanismos de fiscalização carecem de independência e os sistemas de responsabilização não entregam resultados mensuráveis. Repressão sem inteligência e financiamento sem governança verificável não constituem política ambiental — sinalizam sua ausência.

A lógica, a razão e o acúmulo de evidências empíricas impõem uma postura mais cautelosa e disciplinada por parte dos doadores internacionais. Avaliações recorrentes de desempenho institucional, integridade pública e controles anticorrupção apontam deficiências persistentes na capacidade de fiscalização, fragmentação de controles e limitada efetividade dos mecanismos de compliance em diversos setores da máquina pública brasileira.

Nessas condições, confiança não pode ser presumida — precisa ser demonstrada por meio de auditorias independentes, monitoramento contínuo, indicadores claros de desempenho e mecanismos efetivos de responsabilização. A soberania não pode servir de substituto à transparência, nem a urgência moral pode se sobrepor à diligência baseada em evidências.

A Amazônia não necessita de gestos simbólicos, retórica ou fluxos financeiros incondicionais. Necessita de inteligência institucional, fortalecimento do Estado, rigor na responsabilização e estratégias de desenvolvimento baseadas em resultados rastreáveis.

Por fim, impõe-se uma consideração lógica incontornável: nenhuma nação deve ser chamada a pagar pela destruição praticada em territórios estrangeiros por ações de seus próprios povos. A solução não é complexa nem ideológica: cabe a cada sociedade educar sua população para a consciência de que a degradação do próprio patrimônio biológico e natural conduz, inevitavelmente, à escassez, à fome e à instabilidade. A história demonstra que, quando o colapso ambiental compromete a segurança alimentar, a própria soberania se fragiliza. Em cenários extremos de escassez, abre-se espaço para intervenções externas, e nações mais poderosas tendem a assumir o controle de recursos naturais estratégicos sob o argumento da preservação e da estabilidade. A responsabilidade ambiental, portanto, não é apenas uma escolha ética — é uma condição de sobrevivência e de autodeterminação.

Em conclusão, as evidências apontam para uma dinâmica estruturalmente autorreforçadora na qual a degradação ambiental é convertida em fonte contínua de fluxos financeiros; esses fluxos sustentam arquiteturas institucionais; e tais arquiteturas tornam-se funcionalmente dependentes da persistência das próprias condições que legitimam a sua existência. Essa dinâmica reflete um padrão clássico de dependência de trajetória (path dependence) e de risco moral institucional, no qual uma cultura prevalecente de acomodação — discursivamente enquadrada como engajamento virtuoso — opera como mecanismo de estabilização do status quo, deslocando sistematicamente políticas públicas transformadoras e inibindo a emergência de soluções genuinamente preventivas e sustentáveis.

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