”¡Vengan por mí, cobardes!” — gritou o cangaceiro, repetindo o camarada preso em Nova Iorque que, de “maduro”, apodrecera por lá junto com a companheira vadia.
A trilogia ‘amedrontadora’ formada pelo lulismo, o terrorismo e o tráfico: a nova estratégia brasileira de apenas assistir aos acontecimentos
Há momentos em que a política produz cenas tão curiosas que a realidade parece pedir ajuda ao humor para ser compreendida. A recente notícia envolvendo o interesse americano em classificar o CV e o PCC como organizações terroristas produziu um espetáculo digno de observação.
Flávio Bolsonaro correu para reivindicar os louros. O governo Lula correu para monitorar. E Washington continuou fazendo o que Washington faz há décadas: tomando decisões com base em seus próprios interesses.
Talvez estejamos diante do nascimento de uma nova escola diplomática brasileira. A antiga política externa falava em protagonismo; a nova parece apostar no monitoramento.
Monitora-se tudo. Monitora-se Trump. Monitora-se o Congresso americano. Monitoram-se as intenções de Washington. Monitoram-se até os monitoramentos.
O próximo passo talvez seja criar um Ministério da Observação Preventiva dos Fatos Consumados. Porque, afinal, Lula monitora; Trump decide.
Não creio que Flávio Bolsonaro tenha sido o arquiteto da iniciativa americana. Seria um exagero tão grande quanto afirmar que um surfista criou o oceano. Mas seria igualmente injusto negar que soube aproveitar a onda. Flávio surfou a onda; Lula monitorou a maré.
A diferença parece pequena, mas na política, às vezes, ela separa quem aparece na fotografia de quem aparece no relatório de acompanhamento da fotografia.
O mais divertido, entretanto, é assistir ao drama patriótico repentino de quem descobre que grandes potências raramente pedem autorização para defender aquilo que consideram seus interesses estratégicos. É uma descoberta surpreendente. Os Estados Unidos fazem isso desde antes da invenção da televisão. Antes da internet. Antes mesmo de muitos dos atuais comentaristas políticos terem nascido.
Ainda assim, Brasília reagiu com solenidade. Anunciou que está monitorando possíveis interferências externas. A frase é maravilhosa. Tem a mesma eficácia prática de um passageiro anunciar que está monitorando atentamente a aproximação de um trem de carga.
A questão nunca foi observar. A questão sempre foi o que fazer depois. E é justamente aí que a sátira encontra a realidade. Porque a geopolítica possui um defeito terrível: ela não lê notas de repúdio, não assiste a coletivas indignadas, não se impressiona com discursos inflamados e não se intima com metáforas heroicas.
Ela responde apenas a uma linguagem muito antiga: poder. Poder econômico. Poder militar. Poder tecnológico. Poder diplomático. Todo o resto costuma ser material para discursos.
Por isso, confesso que pagaria ingresso para assistir a uma nova reunião entre Lula e Trump. De um lado, o homem que se apresenta como portador do sangue e da alma de cangaceiro. Do outro, o homem que construiu sua carreira política convencendo o eleitor americano de que os Estados Unidos devem agir como o xerife do mundo.
Entre o Cangaço e a Casa Branca, existe um detalhe inconveniente: o cangaço pode inspirar discursos, mas a Casa Branca controla porta-aviões. E a história ensina que, quando a retórica encontra o poder, normalmente é a retórica que precisa se adaptar.
Talvez seja por isso que o episódio mereça ser lembrado como o dia em que o cangaceiro encontrou o xerife. Não houve duelo. Não houve confronto. Não houve resistência épica. Houve monitoramento. Muito monitoramento.
Porque, na moderna República dos Monitores, acompanha-se tudo com enorme atenção. Apenas não se influencia quase nada. No final, sobra uma verdade desagradável, porém persistente: enquanto alguns observam o tabuleiro, outros movem as peças. E o observador, por mais atento que seja, continua sendo apenas espectador do jogo.
O ápice dessa paralisia é ver o próprio “Lulismo” ser parodiado e rebatizado pela força dos fatos. Ao estender o manto da retórica e dar um sentido de defesa explícita tanto à mística do cangaço quanto às facções criminosas, Lula acabou inspirando a criação dessas duas novas patologias políticas: o “Cango-tráfico” e o “Cango-rismo”. O problema é que, no xadrez de Washington, o romantismo ideológico perdeu o prazo de validade. As facções agora foram classificadas oficialmente como narcoterroristas, e o voluntarismo de Brasília virou piada de mau gosto.

