Nem toda reaproximação é reconexão, nem todo sorriso é sincero, nem toda aparência de afeição é confiável — entre pontes e acessos, sem palavras, o tempo expõe quando a presença é intenção, não afeto.
E distingue quem é prioridade de quem é apenas conveniência pessoal, nesses raros lampejos de fraternidade perdidos em algum ponto do passado, antes que os fomentadores dos elos afetivos seguissem sua viagem cósmica.
Há reencontros que não carregam afeto, mas intenção.
A reaproximação de familiares ou amigos após longas ausências nem sempre nasce do desejo genuíno de reconexão. Em muitos casos, surge exatamente quando algo mudou — uma conquista, uma estabilidade, uma nova fase. E então, o que poderia ser acolhido como proximidade passa a ser percebido com cautela.
Porque o tempo, quando silencioso demais, também fala.
Fala nas ausências injustificadas, ainda que silenciosamente compreendidas como escolhas compatíveis com o grau de importância que cada um ocupa, revelando que aquilo que não é prioridade facilmente se converte em oportunismo descartável.
Fala nas presenças seletivas, nos vínculos que só se manifestam quando há algo a ser obtido — e não a ser compartilhado.
É nesse contraste que a percepção se impõe com clareza:
nem toda reaproximação é ponte — algumas são apenas acesso.
Nem todo vínculo sanguíneo representa vínculo espiritual.
Não que exista uma necessidade imperativa dessa presença, uma vez que ninguém é necessariamente necessário, mas indubitavelmente diminui aquilo que deveria ser relações fraternais voltadas à evolução da própria essência que forma a espiritualidade humana — sobretudo daqueles que se proclamam adoradores de um Deus de amor, mas são incapazes de demonstrar tais convicções em ações humildes e elevadas, independentemente da leitura que façam dos demais.
Há estranhos mais fraternos que irmãos consanguíneos, cujas ações de empatia e reconexão recíproca e espontânea os identificam como membros de uma família que parece existir além do plano terreno. E, nesses encontros, o regozijo flui da alma, livre de limites.
E, quando desprovida de constância, respeito, afeição, fraternidade e reciprocidade, essa aproximação revela sua verdadeira natureza:
oportunismo, conveniência e desconsideração — uma trilogia comportamental indesejada.
E quando tudo se revela, resta apenas o inevitável:
nunca foi distância — foi ausência desde sempre, cuja falta de consciência hoje pode se tornar o arrependimento de amanhã… e, quando esse despertar enfim ocorrer, o tempo de reparação já terá se esgotado com o próprio término da existência.

