Adamar de Paiva Sales: Um Legado que Floresce na Memória

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A Essência de uma Vida Dedicada

Por iniciativa do Senador Álvaro Dias, os Anais do Senado Federal acolheram a biografia de Adamar de Paiva Sales, um reconhecimento que transcende o formal, celebrando uma existência pautada pela ética inabalável, a dedicação à família e um serviço incansável às comunidades da Amazônia. Dentista por profissão, mas missionária por vocação, Adamar foi líder comunitária, conselheira, filantropa, musicista e voluntária, tecendo uma trajetória que se tornou um testemunho vivo de fé e dignidade.

Senador Alvaro Dias

As Raízes da Resiliência

Nascida em 1933, no coração do Pará, Adamar floresceu em um cenário de desafios que, longe de a definirem, forjaram um caráter resiliente e uma profunda sensibilidade social. Desde os primeiros anos, sua vocação para o cuidado com o próximo manifestou-se, pavimentando o caminho para uma juventude onde a disciplina, a fé e o senso de responsabilidade se enraizaram como pilares inabaláveis de sua jornada.

O Santuário Familiar e a Missão Compartilhada

Ao lado de seu esposo, Jairo de Freitas Saraiva, Adamar ergueu um lar alicerçado em valores perenes, transmitindo aos filhos a preciosidade da dignidade, a honra do trabalho e a força da fé. Mais que uma mãe, ela foi um farol moral e espiritual, uma presença que, embora firme, era sempre acolhedora, e cuja luz continua a guiar as gerações que dela descendem. Sua influência, um rio sereno, perpetua-se, irrigando corações e mentes.

Adamar e o esposo Jairo

A Odontologia como Poesia do Cuidado

Adamar não apenas exerceu a odontologia; ela a transformou em uma verdadeira poesia do cuidado, um instrumento de transformação social. A bordo da pequena e corajosa embarcação “Jaimar” — um nome que ecoava a união de “Jairo” e “Adamar” — ela navegou pelos rios da Amazônia. Sua missão: levar atendimento odontológico a populações ribeirinhas isoladas, muitas vezes esquecidas e desassistidas. Ela mesma, a capitã de seu destino e de sua embarcação, enfrentava longas distâncias, a precariedade estrutural, a escassez de recursos e os temidos temporais tropicais que, embora a assustassem, jamais a detiveram. Não eram apenas viagens; eram atos de coragem. Não eram apenas atendimentos; eram gestos de humanidade, que semeavam esperança onde a necessidade era mais profunda.


A embarcação transformada em consultório odontológico

A Fé como Bússola em Meio a Tempestade

Entre as muitas provações enfrentadas nas longínquas margens dos rios amazônicos, a escassez de alimento era uma sombra recorrente. Em uma ocasião, após semanas à espera de peças para reparar uma embarcação avariada, os suprimentos se esgotaram. Diante da fome e da incerteza, Adamar, com a fé que lhe era intrseca, ajoelhou-se e orou, pedindo a Deus um sinal de Sua presença, um provimento. Foi então que, às margens do rio Madeira, avistou uma planta que lhe pareceu mandioca. O ajudante, a seu pedido, trouxe o tubérculo que, para ela, representou o verdadeiro “maná” divino, um eco do sustento provido ao povo de Israel no deserto.

Em outra situação de aflição, novamente a fome se fez presente, fruto das dificuldades de abastecimento nas regiões remotas da Amazônia. Seu filho Samuel, então com apenas cinco anos, percebendo a gravidade, aproximou-se com a serenidade dos sábios e proferiu: “Mamãe, não se preocupe. Eu não demoro.” Com uma vara de pesca artesanal e algumas minhocas encontradas na terra úmida, ele caminhou até o igarapé. Pouco tempo depois, retornou com um feixe de cerca de dez peixes. Adamar os recebeu com um sorriso que disfarçava a emoção profunda e o orgulho silencioso de ver seu filho, à sua maneira, “salvar” a mãe e os irmãos menores do flagelo da fome. Naquele instante, enquanto ela agradecia a Deus em voz alta, não era apenas alimento que se partilhava; era fé, era amor, era dignidade e gratidão, tecendo laços indissolúveis de esperança.

A Proteção que Transcende o Visível

Um episódio que gravou na alma a certeza de uma proteção maior ocorreu quando Samuel, com quase quatro anos, brincava com o cão da família, King, na proa da embarcação. Em um instante de descuido, a criança caiu nas águas turvas e traiçoeiras do rio. O cachorro, em um impulso instintivo de lealdade, saltou imediatamente atrás dele. Ambos desapareceram por alguns segundos. Adamar, que não sabia nadar, assistia à cena em desespero. Foi então que o maquinista da embarcação, um jovem de porte franzino, lançou-se ao rio e, de forma quase milagrosa, trouxe de volta à superfície a criança e o animal, salvando-os de um destino sombrio. Momentos como esse reforçavam, em seu espírito, a convicção de que sua vida era constantemente guardada por uma força que transcende o visível.

O Legado Imortal

A vida de Adamar de Paiva Sales não se mede apenas pelos feitos, mas pelo impacto silencioso e duradouro que deixou em cada coração que tocou. Sua história permanece viva não apenas nos registros oficiais, como os do Senado Federal, mas, sobretudo, na memória afetiva de sua família, nas comunidades que serviu e nos valores que semeou ao longo de sua caminhada. Seu legado é um tecido de coragem, fé inabalável, serviço ao próximo e amor incondicional. Uma vida que, mesmo diante das adversidades mais severas, escolheu — reiteradamente — cuidar, servir e acreditar.

Contudo, na travessia humana, há uma dimensão que escapa à lógica da justiça terrena. Após o acidente que lhe foi fatal, Adamar aguardou por longas horas, sentada em um banco desconfortável de um setor emergencial na cidade de Porto Velho, sem o atendimento que poderia ter reescrito o desfecho de sua história terrena. Ali, em silêncio e agonia, manteve-se em oração. Não por si, mas, como sempre, por seus filhos, para que fossem protegidos. Talvez, naquele instante, já pressentisse a proximidade do fim. E assim, entre a fé que a sustentou por toda a vida e a fragilidade das estruturas humanas que a cercavam, seu corpo cedeu, marcado por múltiplas fraturas torácicas e hemorragia interna. Partiu. Não amparada como merecia pela presença humana, mas, ainda assim, envolta pela mesma fé que jamais a abandonou.

Em sua humilde morada, as flores murcharam na ausência de seus cuidados. E, como é próprio do fluxo inevitável da vida, outros chegaram, outros passaram, outros ficaram. Mas aquilo que verdadeiramente importa, a essência de Adamar, isso não se substitui. Permanece em forma de saudade, na memória e na alma de uma história tecida com simplicidade, amor e compaixão. Uma história que não se encerra, mas se transmuta, eternizando-se em um legado que floresce e, por fim, se integra à imensidão do cosmos — transformando-se na poeira estelar que os ventos universais conduzem às paragens do infinito, onde tudo o que foi amor se torna eterno.

Senadora Fatima Cleide

Em um cenário histórico marcado por restritas oportunidades para as mulheres, a figura de Dona Adamar emergiu com distinção. Ela se destacou por exercer uma atividade profissional qualificada, mantendo uma autonomia intelectual inabalável, uma firmeza de princípios notável e uma participação ativa na vida social, sem jamais abdicar dos valores familiares que a norteavam.

Por ocasião de seu falecimento, a então Senadora da República Fátima Cleide, Presidente da Comissão de Educação do Senado Federal, proferiu o seguinte e comovente depoimento:

“Dona Adamar foi muito mais do que nossa dentista e eleitora fiel. Ela foi um verdadeiro exemplo. Eu a admirava profundamente por sua integridade moral, por ser uma mulher dinâmica em tempos nos quais o espaço da mulher era, infelizmente, estritamente reservado ao âmbito doméstico.”

Esta homenagem ressalta não apenas a trajetória individual de Dona Adamar, mas também o seu papel como pioneira e inspiração para as gerações futuras, desafiando as convenções de sua época e deixando um legado de coragem e dedicação.

O descanso eterno

Regresso às Águas da Origem. Em 16 de novembro de 2012, às 19h50, Adamar de Paiva Sales encerrou seu ciclo terreno aos 78 anos, na cidade de Porto Velho, Rondônia. O vigor de uma existência dedicada ao outro encontrou o silêncio em decorrência de um choque hipovolêmico e hemorragia interna, frutos de um trauma tóraco-abdominal imposto pela fragilidade de um acidente de trânsito.

Embora inicialmente acolhida pelo solo do Cemitério Santo Antônio, em Porto Velho, sua jornada póstuma reservava um capítulo de profunda ressonância espiritual. Por decisão judicial e pelo desejo de seus entes, seus restos mortais cruzaram fronteiras para repousar no Lago do Salé, em Juruti, no Pará. Ali, ao lado de sua mãe, Tertuliana Paiva de Farias, Adamar realizou o seu retorno mais simbólico: o reencontro com o ventre da terra que a viu nascer, um mergulho final nas raízes que sempre sustentaram sua alma.

O registro de sua biografia nos Anais do Senado Federal transcende a frieza dos documentos oficiais. Ele consagra uma vida que transformou o cuidado ao próximo em sua mais alta expressão de existência, deixando um rastro de luz que, como as águas do Salé, permanece sereno e eterno na memória daqueles que serviu.

Elos do núcleo familiar erigidos por Adamar, que o tempo, com sua delicada e inexorável passagem, desatou

Plano superior, da esquerda para a direita: Samuel, Adamar, Jairo, Saray e Jair. Na parte inferior: Jaimar e Feb. – Álbum de família, 1974

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Fonte: SENADO FEDERAL DO BRASIL – SECRETARIA-GERAL DA MESA– SECRETARIA DE REGISTRO E REDAÇÃO PARLAMENTAR – SERERP – COORDENAÇÃO DE REDAÇÃO E MONTAGEM – COREM – 06/02/2017.

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