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O paradoxo de um eleitorado que legitima o espetáculo e depois reclama do decepcionante resultado da mediocridade dos atores que escolheu
No picadeiro da política, os atores divertem-se; a plateia do povo paga a conta.
Conta-se uma velha anedota.
Certa vez um político entrou em um prostíbulo, tomou alguns tragos de cana 51 e perguntou à dona do bordel:
— Benzinho, você acredita na minha honestidade?
A mulher pensou por um instante e respondeu com serenidade:
— Acredito… desde que o senhor primeiro me diga se acredita na minha virgindade depois de quarenta anos aqui vendendo amor.
A história é engraçada, mas talvez seja também uma das metáforas mais honestas já feitas sobre a política.
Ainda hoje há quem hipoteque gratuitamente confiança plena e cega a políticos, defendendo-os com fervor, simpatia e entusiasmo. Brigam com amigos, discutem com familiares e repetem slogans como se fossem verdades absolutas. Fezem sinais com letras, armas e outros objetos, acreditam em tapinhas nas costas e no tratamento íntimo que muitos candidatos distribuem generosamente em épocas eleitorais.
Esquecem até advertências antigas. A própria tradição bíblica já alertava: “maldito o homem que confia em outro homem.” Ainda assim, muitos insistem em ignorar o conselho — e acabam, inevitavelmente, quebrando a cara, antes de sairem a procura de outro embusteiro para transformar em falso mito.
A ingenuidade de um eleitorado manipulável muitas vezes não percebe que, em grande parte dos casos, as campanhas políticas tornaram-se instrumentos de legitimação para que indivíduos interessados prioritariamente em vantagens pessoais — e não no bem coletivo — alcancem o poder.
Promessas mirabolantes, fantasiosas e frequentemente impraticáveis são lançadas ao vento durante as campanhas. Depois da eleição, evaporam com a mesma facilidade com que foram feitas.
Porque, no fundo, para muitos desses personagens, a política jamais foi vocação ou idealismo. Sempre foi, antes de tudo, uma oportunidade impar para lucrativas negociatas.
Basta observar um dos exemplos mais escandalosos desse arranjo: o fundo partidário e eleitoral, criado sob o argumento de fortalecer a democracia, mas que, na prática, transformou-se em um gigantesco mecanismo de autossustentação da própria classe política com dinheiro público. Um verdadeiro escarnio tolerado e minimizado pela propria populacao, irresponsavel, subserviente e mediocre.
Entram governos e saem governos. Mudam os discursos, as narrativas, as siglas, as cores e os proselitistas mascarados de ideologias e promessas quie se alternam no poder. No entanto, no plano real, a situação da população pouco muda — e progressivamente se agrava.
E o resto é o mesmo de sempre: demagogia, mentiras, falácias e um vergonhoso estelionato eleitoral.
Tudo isso revestido de uma aparência de plena legitimidade institucional, chancelada pelos próprios poderes do Estado.
A isso chamam de “Estado Democrático de Direito”. Vergonha.
E então surge a pergunta inevitável:
Com que autoridade moral impõem leis aos pobres em nome da justiça, enquanto garantem proteção e atenuantes aos seus aliados nas elites do poder econômico, judicial e político?
No final das contas, tudo configura um grande circo.
Talvez o mais impressionante de tudo não seja o circo da política.
O mais impressionante é a plateia.
Uma multidão que paga a conta, sustenta o espetáculo e ainda aplaude de pé os próprios algozes que a exploram — numa persistente postura de burrice aguda e masoquismo psico-social coletivo.

