Efemeridade: Entre o Tangível e o Imaginado

Repentinamente desperto, refletindo sobre a efemeridade da existência humana, sinto a necessidade de escrever — como quem tenta não desperdiçar as centelhas de lucidez que surgem no silêncio da madrugada.

Talvez a insônia — essa hóspede indesejada que insiste em visitar quando o corpo pede repouso — seja, paradoxalmente, um dos poucos momentos em que a consciência encontra silêncio suficiente para se escutar sem a mediação das urgências do dia.

Enquanto o tempo passa, extasiados ou distraídos, contemplamos o universo cuja beleza só conseguimos perceber a uma distância ínfima dos nossos próprios olhos. Alguns buscam compreender o sentido real da existência; outros se ocupam com ilações que tentam converter em realidade; enquanto multidões se consolam com a improvável ideia de caminhos que os conduzirão à eternidade — ao reencontro com aqueles com quem tiveram o privilégio de conviver aqui, mas nem sempre souberam tratar com o apreço devido.

Todos, sem exceção, receberam o raro privilégio de haver chegado a esta dimensão para vivenciar uma experiência verdadeiramente celestial — não no sentido místico do “divinal”, mas no sentido cósmico: o de habitar este corpo celeste que chamamos de universo.

A mente teme porque deseja permanência. A realidade segue porque opera por transformação.

Entre esses dois movimentos nasce a ansiedade: o desejo de estabilidade confrontado com a vocação inevitável da mudança — o diálogo honesto entre o atrito da permanência desejada e a transformação inevitável, imperceptível para intelectos envolvidos pela sombra do medo, sofrendo por antecipação na escassez de luz interior.

Reconhecer — com medo ou apesar dele, apegados ou não à continuidade desta experiência — que todo ciclo biológico se encerra, pode inaugurar uma forma discreta de paz interior. Admitir com serenidade que, ao final desta travessia, nada do que hoje percebemos como material persistirá na forma que conhecemos — e que seremos, no máximo, energia dissipada no tecido do cosmos — não empobrece a existência; ao contrário, dissolve expectativas insustentáveis e nos emancipa da cultura do medo que aprisiona mentes despreparadas para a finitude. Encarar o término não como falência, mas como condição intrínseca ao próprio fenômeno de existir, permite recebê-lo com resignação lúcida e até gratidão, atenuando o sofrimento amplificado pelo pavor da morte e pelas promessas de permanência que jamais poderiam se cumprir.

E o tempo — esse senhor que dobra os poderosos, nivela ricos e desprovidos, materialistas e espiritualistas — transforma a arrogância e a beleza em trapos desprezíveis no limiar da exaustão da vida. A luz, outrora intensa, reduz-se a um tom tênue antes de apagar-se, e tudo entra num túnel de silêncio indescritível, pondo fim às ilusões: ao desejo antigo de eternidade, de reencontro e de continuidade da vida na forma material.

Ainda assim, persistem os delírios de ruas de ouro, rios de leite e mel, mansões celestiais e trombetas triunfantes — como se espíritos pudessem usufruir dos mesmos privilégios que só fazem sentido nesta dimensão física.

Nada permanece — e nisso reside não uma ameaça, mas uma forma silenciosa de misericórdia ontológica.

O tempo segue implacável. Cada segundo que passa não retorna. E entre dias de chuva e tempestade, ventos, frio e calor — ou sob o sol embalado pela trilha sonora de pássaros inocentes e o riso de crianças — repete-se o ciclo da vida neste lugar espetacular onde desperdiçamos oportunidades que surgem como pepitas ou pedras preciosas: o tesouro inestimável da interação humana.

Compreender os ciclos não é resignar-se ao destino, mas libertar-se da necessidade de congelar o que, por natureza, é fluxo.

Distraídos, seguimos nossa sina até o momento final — cambaleantes como ébrios numa estreita ruela entre a razão e a loucura, entre a obediência e a transgressão de normas imaginativas, muitas vezes desprovidas de sentido ético, moral ou espiritual, formatando conceitos ou interpretando a realidade a partir de um limitado e sectário ângulo de conhecimento.

Talvez, se nos dispuséssemos a compreender o sentido maior da existência — livre da contaminação de narrativas antigas, de delírios coletivos e promessas improváveis — perceberíamos que grande parte do temor que nos envolve diante da partida não nasce da morte em si, mas da cultura do apego ao que jamais nos foi dado para eternizar.

Assim, refletir sobre a efemeridade da existência humana é também uma forma de não desperdiçar essas preciosas centelhas de lucidez que, como vagalumes, iluminam a mente — convidando-nos a valorizar aquilo que temos hoje, e que é, de fato, real.

Entre o desejo de permanência e a inevitabilidade da transformação, a lucidez consiste em não sofrer pela eternidade imaginada que nos escapa no presente — único instante onde, de fato, toda existência acontece.

Comentários:
A imagem que acompanha este ensaio não pretende sugerir transcendência por vias místicas, mas convidar à contemplação da condição humana diante da vastidão do cosmos. Em sua discrição, ela sintetiza efemeridade, consciência e escala cósmica sem recorrer a simbologias religiosas — exatamente como o texto propõe ao situar a experiência humana como um breve lampejo de lucidez na imensidão silenciosa do universo material. A. Monaigne – Vancouver, CA

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