Choque de realidades: de um lado, a lógica da repressão espetacular e destrutiva; do outro, a possibilidade de inclusão produtiva, sustentável e inteligente. Causa, consequência e escolha política.
A recente exaltação de operações repressivas contra o garimpo ilegal no Amazonas, celebradas como grandes vitórias ambientais, revela mais sobre a fragilidade do Estado brasileiro do que sobre sua real capacidade de proteger a Amazônia. Ao transformar a destruição de máquinas, balsas e estruturas em espetáculo midiático, o poder público oferece à sociedade números vistosos e manchetes convenientes, mas evita o debate essencial: por que o problema persiste e quem falhou em preveni-lo.
A repressão, quando isolada, pode gerar impacto visual e aplausos momentâneos, mas não produz justiça ambiental, estabilidade social nem preservação duradoura. Quando apresentada como política ambiental bem-sucedida, converte-se numa perigosa inversão de valores.
Repressão não é política pública: quando o Estado celebra a destruição e ignora a própria responsabilidade
Governar não é destruir. Governar é planejar, oferecer alternativas e construir soluções sustentáveis. Um Estado que chega às regiões mais remotas da Amazônia apenas com força, fogo e coerção — mas não chega com escolas, assistência médica, crédito produtivo, políticas de inclusão e presença institucional permanente — não está protegendo o meio ambiente. Está apenas administrando o próprio fracasso.
Garimpo ilegal, repressão espetacular e a ausência de inteligência de Estado na Amazônia
O garimpo ilegal não é apenas um crime ambiental. É um fenômeno social e econômico profundamente ligado à pobreza estrutural, à falta de oportunidades e à inexistência de alternativas viáveis de sobrevivência. Reduzir essa realidade complexa a uma simples questão policial é sinal de pobreza intelectual e de irresponsabilidade administrativa.
Operações contra o garimpo ilegal exibem números, mas ocultam a falência do Estado na Amazônia
Manchetes que alardeiam bilhões em “prejuízos” ao garimpo ilegal ocultam uma pergunta incômoda: quantos bilhões o Estado deixou de investir em soluções estruturais, sustentáveis e humanas? Quantas oportunidades foram perdidas pela ausência de políticas públicas sérias?
Mais do que denunciar a ineficácia da repressão isolada, este texto aponta caminhos possíveis. O Brasil poderia investir de forma estratégica no desenvolvimento agroflorestal, na recuperação da cadeia produtiva do látex, na instalação de indústrias locais de processamento de borracha e na fabricação regional de pneus para o mercado mundial, gerando emprego e renda na própria Amazônia.
Da mesma forma, a produção de açaí em larga escala poderia ser fortalecida com critérios transparentes e inclusivos, assegurando uma distribuição justa de valor entre pequenos produtores, cooperativas e cadeias industriais, reduzindo a dependência de atividades ilegais.
Conclusão
Queimar máquinas não salva a Amazônia. O que poderia salvá-la é a coragem política de abandonar narrativas convenientes e enfrentar responsabilidades reais. Enquanto a violência for tratada como virtude, a inteligência como detalhe e o espetáculo como política pública, o país continuará preso a soluções aparentes e fracassos concretos.
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Nota do autor:
Esta publicação em espaço independente não representa afastamento do debate público, mas uma escolha deliberada de antecipação. Quando narrativas oficiais evitam examinar responsabilidades estruturais, torna-se necessário assumir o controle da reflexão crítica.

