Diário Oficial do Senado Federal
República Federativa do Brasil
(páginas 159 a 164)



Senador
Álvaro Dias (PV-PR), autor da homenagem
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Jornalista Montezuma Cruz


“Expressando lamento por seu falecimento, assim testemunhou a então Senadora da República Fátima Cleide (presidente da Comissão de Educação do Senado Federal brasileiro) à trágica passagem da doutora que por anos atendeu a sua família: “Dona Adamar foi mais do que nossa dentista e eleitora fiel. Foi um exemplo. Eu a admirava pela sua integridade moral, por ser uma mulher dinâmica em tempos em que à mulher era reservado o espaço estritamente doméstico."

A respeito da personalidade de Adamar, o professor José Nilton de Lima, da Universidade Adventista de São Paulo, disse: “Ela foi uma mulher que deixou admirável exemplo de retidão. Não tenho dúvidas de que quem for para o Céu terá a alegria de reencontrar essa batalhadora senhora, de alma grandiosa e espírito missionário. Invejo-a com admiração, na vida e na morte".

O senador Álvaro Dias, líder do Partido Verde no Senado, registrou nos anais da Casa a biografia de Adamar, elaborada pelo filho rondoniense Samuel Sales Saraiva, ex-assessor parlamentar na Câmara dos Deputados, que mora em Washington desde 1992, onde é membro do National Press Club - NPC e à National Association of Hispanics Journalists - NAHJ.

“Adentrava-se o mês do Natal naquele início de inverno amazônico chuvoso, no Lago do Salé, Território de Juriti, Comarca de Óbidos, no Estado do Pará. O relógio marcava 21 horas do dia 4 de dezembro de 1933 quando se ouviram os primeiros sons de um bebê que despertava para a vida naquela humilde casinha de taipa, situada em Curralinho, para alegria de seus pais, Antônio Sales de Farias e a jovem Tertuliana Paiva de Farias. Eles a batizaram com o nome de Adamar. Graciosa, dócil e sorridente, logo cativou o coração dos avós paternos, Antônio Ferreira de Farias e Francisca de Paula Sales, sem poupar da mesma alegria os avós maternos, José Alípio de Paiva e Maria Antônia da Conceição Paiva.

“Naquele momento mágico abençoado, o “relógio de areia do tempo", chamado ampulheta (inventado pelo monge de Chartres, de nome Luitprand, que viveu no século VIII), dava início à contagem retroativa do tempo para Adamar rumo ao plano celestial. Seu tempo expirou-se exatamente às 19h50min do dia 16 de novembro de 2012, 78 anos depois, em virtude de choque hipovolêmico e hemorragia interna decorrentes de trauma tóraco-abdominal causado por acidente de trânsito em Porto Velho, Estado de Rondônia.



Adamar, odontóloga, filantropa e conselheira de jovens
“Aos seis anos de idade, Adamar perdeu Tertuliana, a zelosa mãe que soube plantar em sua personalidade as sementes dos bons costumes, da moral e da decência que observados zelosamente por ela ao longo de toda jornada. À incalculável perda para o coração da pequena somou-se a separação seus irmãos Álvaro e Aloísio que igualmente por imposição do destino tiveram que palmilhar por diferentes caminhos quando o pai, Antonio Sales decidiu formar outra família. Adamar seguiu com resignação sua senda. Inicialmente foi acolhida por um tio e posteriormente morou com a prima Otacília antes de ser acolhida por um internato católico onde ficou até a adolescência.

“Portava-se com nobre postura e vestia-se de maneira sóbria e discreta, sem ocultar elegância. Acreditava que uma mulher se tornava virtuosa pelo intelecto e valores morais. Aos 22 anos, a jovem comerciária e estudante de próteses odontológicas conheceu o enfermeiro militar e ex-combatente brasileiro da 2ª Guerra Mundial Jairo de Freitas Saraiva, filho de Luiz Rufino Saraiva e Maria de Freitas Saraiva, com quem se casou, em 7 de janeiro de 1955 no Município de Parangaba, Comarca de Fortaleza, no Estado do Ceará.

A SAGA NOS RIOS DA AMAZÔNIA

“Adamar formou-se em Odontologia ainda bem jovem, em Belém do Pará, em uma turma composta de poucas mulheres. Logo após o casamento, ela e o marido decidiram regressar a Manaus, cidade onde haviam se conhecido por desígnios celestiais. Decidiram, então, comprar um pequeno barco movido a diesel, que batizaram de “Jaimar", numa formação do nome de ambos (Jairo e Adamar). Nele, montaram um consultório móvel odontológico ambulatorial com o objetivo de prestar assistência às populações ribeirinhas às margens dos Rios Negro, Solimões e Madeira.


Barco Jaimar, nome que faz a junção de Adamar e seu marido
Jairo de Freitas Saraiva /Álbum de Família
“Destemida, logo aprendeu os segredos da atividade na pequena embarcação que ela mesma capitaneava. Naquela época, os protéticos atuavam em todas as áreas da Odontologia, desde o tratamento de fístulas dentárias, extrações de dentes, obturações, curativos e confecção de próteses dentárias até o preenchimento de cáries com chumbo e a aplicação de pivôs. A profissão encontrava-se fortemente ligada à história brasileira graças ao alferes inconfidentes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes.

“Nunca recusou-se atender alguém por falta de condições financeiras e, para não constranger pacientes humildes, muitas vezes aceitou açaí, cupuaçu, mandioca, peixe e animais de estimação como permuta pelos serviços prestados, praticando sua fé no atendimento comunitário.

“Além de uns poucos pertences de uso pessoal e os instrumentos odontológicos guardados com carinho com os quais exerceu a profissão como sacerdócio, Adamar deixou um legado estelar de bondade, desprendimento e solidariedade às vidas que cruzaram seu caminho.

Há fatos inesquecíveis na vida humana que deixam no coração daqueles que os presenciam traços verdadeiramente indeléveis.

“A bondosa dentista costumava relatar com prazer as muitas experiências com Deus que revelavam a sua fé inabalável. Contava que, certa vez, em um lugar remoto da selva amazônica, após o barco ter perdido a hélice, os alimentos acabaram. Todos os que ali estavam começaram a passar muita fome. Confiante na providência divina, ela não se rendeu: colocou os joelhos em terra e clamou ao Senhor por um milagre.

“Após a oração, pediu que o maquinista fosse até o barranco, pois lá estaria o alimento suplicado a Deus. Ao retornar, tinha consigo uns dez quilos de macaxeira nativa encontrada naquele lugar, onde não havia habitantes e, muito menos, plantação feita por mãos humanas. Essa era uma das muitas experiências que lhe traziam alegria compartir. Adamar tinha o costume de exaltar o Criador com seu louvor permanente e profundo agradecimento pela vida.

ADMIRADORA CONTUMAZ DA NATUREZA, AO APRECIÁ-LA DE UMA CABANA DO HOTEL PAKAAS, SOB A HOSPITALIDADE DA FAMÍLIA SALDANHA, ELA EXCLAMOU: “DEUS É MARAVILHOSO EM NOS PERMITIR OBSERVAR A GRANDEZA DE SUA CRIAÇÃO NA CONFLUÊNCIA DESSES DOIS RIOS DE ÁGUAS QUE NÃO ME MISTURAM E ESSE PÔR DO SOL EXTRAORDINÁRIO!". REPORTAVA-SE AO ENCONTRO DAS ÁGUAS DOS RIOS MAMORÉ E PACAÁS NOVOS.


(Da esquerda para a direita) Jorge, Leonor, Sales, Adamar, Aguimar e Jairo

O LEGADO
“Adamar foi uma mulher singela e mãe exemplar, cujo amor, desprendimento e compreensão refletiam bondade. Pautou suas ações pela constância, dedicação e perseverança, norteando-se sempre pela serenidade. Sempre respondia com a sabedoria dos que desvendam os mistérios da vida e com a mesma simplicidade que a acompanhou desde a infância, contentando-se em amar de verdade até mesmo aqueles que em alguns momentos, ofuscados pela ingratidão, fizeram seu coração sangrar de tristeza por meio do mais eloquente silêncio.
“Foi forte como uma rocha em sua fé inabalável postada em Deus, mas sensível ao choro e ao sofrimento dos desfavorecidos, dos quais alguns o destino apenas permitiu que dela recebessem um abraço, que eternizaram com respeito e marco de infinito amor.
Em retribuição ao que projetava, recebeu o amor e a atenção daqueles que ajudou, amenizando dores e dificuldades.
“Ao revermos seus escritos, a emoção invade-nos a alma com doces lembranças que testemunham o sentimento de uma pessoa nobre que deu sentido especial e inigualável aos que tiveram o privilégio de passar por seu caminho.
“Turista celestial na Terra, Adamar ofertou precioso e exemplar legado de caridade, amor e vida. Manteve um sorriso de paz interior, o mesmo que marcou sua última expressão, como um delicado e saudoso “até breve". Deixou para trás o sentido cronológico de tempo que condiciona a vida terrenal para iniciando a viagem eterna de luz.
Samuel Sales Saraiva com a mãe Adamar Sales Saraiva, no local onde foi construída a hidrelétrica de Santo Antônio /Álbum de Famíla

EXEMPLO DE CIDADANIA
Expressando lamento por seu falecimento, assim testemunhou a então Senadora da República Fátima Cleide (presidente da Comissão de Educação do Senado Federal brasileiro) "à trágica passagem da doutora que por anos atendeu a sua família: “Dona Adamar foi mais do que nossa dentista e eleitora fiel. Foi um exemplo. Eu a admirava pela sua integridade moral, por ser uma mulher dinâmica em tempos em que à mulher era reservado o espaço estritamente doméstico."

NOTA DA REDAÇÃO

Muito conhecido em Rondônia, o marido de dona Adamar, Militar, o poeta, líder comunitário e cristão Jairo de Freitas Saraiva, está no blog do filho, Samuel Saraiva. Nascido em Manaus (AM), ele foi expedicionário da FEB conheceu, Adamar, casaram-se e fixaram residência em Porto Velho, então Capital do Território do Guaporé, no governo de Jesus Bulamarque Hosanna (1952). Jairo fora incentivado, na condição de ex-combatente, a ingressar na então Guarda Territorial, no posto de suboficial, como início de carreira, aposentando-se décadas depois com a parente de capitão.